http://wwwtropis.org/biblioteca • 02.07.2008
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ETIÓPIA Ralf Rickli • rr@tropis.org Capítulos
31 a 41 do livro O dia em que Túlio descobriu a África (São Paulo: Trópis, 1997 - atualmente esgotado) |
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31. A Terra do Preste João... e do Ras Tafári 32. Um planalto entre Kush e Sabá 33. Os primeiros arranha-céus do planeta 34. Aksum 35. O destino de um espião português 36. A endjera e o mistério da arca 38. A história de Frumêncio e Edésio 41. A Mãe fala nos jardins de Lalibela
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31:
A
Terra do Preste João... e do Ras Tafári Disseram
adeus a esse lugar único, agora já quase familiar [o topo do Monte
Kilimandjaro], e avançaram direto pra norte por sobre Nairóbi e as encostas
frescas do Monte Quênia, por sobre planaltos férteis, e estepes, e desertos... e
logo sobre novos planaltos, recortados de fundos vales. Aliás, tão recortados
que se poderia chamar tudo aquilo de um mar de montanhas. Idriss anunciou: -- Eis
o país que no século XX se chama Etiópia -- também conhecido ao
longo do tempo como Abissínia, ou Habashat, ou reino de Aksum... A história
deste pedacinho da África já dava sozinha pra todo um congresso e todo um
livro! Montes,
lagos e vales se sucediam, até que sobrevoaram Adis Abeba, a capital atual. -- Como
vocês vêem, há construções bem modernas em Adis Abeba, que é séde da OUA
(Organização da Unidade Africana). Pra quem gosta de números, a cidade tem
perto de um milhão e meio de habitantes e está a 2500 metros de altitude - mas
não tem muito mais de 100 anos de idade. O país teve antes outras capitais
como Gondar e Roha, mas principalmente Aksum[1],
sua verdadeira raiz e coração por bem uns 2 mil anos. É para Aksum que quero
levar vocês. ... Enquanto
não chegamos lá, vai uma curiosidade sobre a Etiópia moderna. Há uma palavra
que os jovens do fim do século XX usam bastante sem saber que vem da Etiópia.
Especialmente os fãs de reggae. -- ???
-- Na
língua daqui a palavra ras significa cabeça e
também príncipe. No começo deste século
o príncipe Lidj Tafári se tornou regente e herdeiro do trono etíope. Lá na
América Central, na Jamaica, havia um movimento político-religioso ligado a
antigas tradições que mesclam a história da Etiópia com histórias da Bíblia.
Esse pessoal começou a esperar a coroação do Ras Tafári como um sinal da
restauração da sorte do povos negros. -- Ras
Tafári! Imaginem só! A gente pensa que isso é um estilo de penteado! -- Pois
não é só... -- E
o que aconteceu? -- O
Ras Tafári foi mesmo coroado neguz,
isto é, imperador da Etiópia, com o nome Hailé Selassié, que quer dizer “O
Poder da Trindade”. Governou a Etiópia quase até sua morte em 1975. De lá
pra cá o país tem vivido tempos revolucionários bastante instáveis. Mas o
nome “rastafári” ficou ligado àquele movimento jamaicano, no meio do qual
nasceu a música de reggae. -- E
infelizmente a tal restauração não parece ter acontecido, não é?... -- Pelo
menos não de um modo rápido, imediato. Mas mudanças históricas podem levar séculos
acontecendo... Quem sabe o fato de vocês estarem aprendendo isto tudo não é
parte dessa restauração? Passou
um pequeno arrepio pela espinha de nossos amigos, que não era de medo, era...
um “arrepio de responsabilidade”. Mas logo um deles lembrou de perguntar: -- Escuta,
Idriss, o pessoal de reggae não adora um deus exótico chamado Jah? -- Não
tão exótico assim: é um dos nomes
usado para Deus nos livros sagrados dos judeus e dos cristãos - em outras
palavras, na Bíblia. -- Ué,
mas eu leio a Bíblia e nunca vi esse nome! -- Você
nunca viu a palavra “aleluia”? --
Claro que sim, mas ainda não vejo nenhuma relação... -- Na
verdade a palavra devia ser pronunciada “alelu‑iá”, pois significa
“louvai a Iáh” - ou Jah, como preferir. -- ! ... Mas
como é que fora daí eu nunca vi? -- Iáh
é só a primeira sílaba do nome. Os judeus consideram o nome completo tão
sagrado que nem pode ser pronunciado -- e começaram uma tradição de dizer
outra palavra no lugar: eles dizem “Adonai” ou “O Eterno”, e nas Bíblias
cristãs você vê escrito “O Senhor”.
-- Olhe
só! ... Mas
não é estranho que um movimento pela liberdade africana use um nome da Bíblia? -- Eu
não falei há pouco que a história da Etiópia é toda entretecida com histórias
da Bíblia? -- Verdade,
falou. Mas... mas...
como? -- Não
se afobe que já já nós vamos ver essas histórias mais de perto - só que
primeiro vamos fazer um “tour” panorâmico pela região, pois isso vai
ajudar a entender. PARA INTERESSADOS EM APROFUNDAMENTO Neguz,
ras: Neguz é
“rei” em amárico, a principal língua etíope nos últimos séculos e até
hoje. Variante antiga: negáchi. Neguza
negasht = rei
de reis, isto é, imperador. Sendo
palavra oxítona, optamos pela grafia com Z (contrariamente aos dicionários)
para evitar confusão com o final -us
átono latino, tão comumente usado entre nós. Definitivamente, o título do
imperador etíope não é uma forma refinada de "nêgo"... Já a
palavra camito-semita ras (em amárico
e em árabe; em hebraico rosh)
significa literalmente cabeça,
designando também cabo (ponta de
terra no mar) e chefe (aliás, três
palavras que derivam de “caput”, que é igualmente “cabeça” em latim!). Como sugere Diop, é
ainda provável a relação entre ras
e as línguas indoeuropéias, como no sânscrito hindu radja (rei e reto/real/verdadeiro), o latim rex (rei, director),
o inglês right etc. Por
que onze capítulos na Etiópia: a) De
todos os Estados nacionais hoje existentes, a Etiópia é um dos mais antigos:
a oeste do Irã, incluindo aí toda a Europa, é o único Estado contemporâneo
de Roma que existiu ininterruptamente até nossos dias (ainda que vez por outra
fragmentado), podendo assim ser chamado, sem exagero, de país
mais velho do Ocidente. Trata-se ainda de um dos primeiros países cristãos do globo, e da única região da África que viveu processos de monasticismo e de formação de feudalismo em tudo comparáveis aos da Europa. Só isso basta para mostrar o quanto tem sido insuficiente a atenção destinada a Etiópia no estudo da história mundial. [1]Ou Axum, ou ainda Agsum. volta ao ÍNDICE
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32:
Um
planalto entre Kush e Sabá Deixaram
Adis Abeba e logo sobrevoaram uma cidade dominada por grandes construções
antigas: -- Debra
Líbanos, antigo Debra Asbos, o maior dos mosteiros etíopes. O país inteiro
está cheio de mosteiros, que desempenharam enorme papel na sua história. Logo
a seguir o planalto despencava em paredões imensos. Láááá no fundo, um rio:
-- O
Nilo Azul, chamado aqui de Abbai. Não prometi que o veríamos de novo?[1] ... Rio
abaixo, vocês lembram, ficava o reino de Kush. Uma das fontes da civilização
etíope é o povo kushita que vivia aqui desde tempos imemoriais. Seguiram
o profundo desfiladeiro na direção rio-acima. As encostas que não eram
verticais eram todas terraceadas com muretas, provando que já haviam sido
plantadas; isso acontecia, aliás, em quase todas as encostas do país. Chegaram
a uma catarata que saía de um lago. -- Eis
onde começa o Nilo Azul: o Lago Tana. Não esqueçam dele, pois será
personagem de histórias que ainda vou contar. -- Lá
vem os seus mistérios de novo. -- Idriss nem deu bola e prosseguiu: -- Mas
a civilização etíope tem outra fonte além de Kush. Vou lhes mostrar. O
tapete fez uma forte curva a leste. Iam por entre fantásticos conjuntos
montanhosos formados de torres de pedra quase verticais. -- Passam
todos de 4000 metros de altitude. Aliás, vamos subir mais pra vocês terem uma
visão de conjunto do que eu quero dizer. O
tapete subiu vertiginosamente. Viram logo à frente que o planalto acabava
abrupto num “degrau” de uns dois quilômetros de altura - o equivalente a um
edifício de 700 andares, se existisse algum. Pra baixo, desta vez, se estendia
uma larga e ondulada planície que ia dar no mar. Mas... seria
mesmo o mar? Pois da altura em que estavam podiam ver que do outro lado desse
mar havia terra. Mais exatamente: montanhas como as do lado de cá. -- É
o Mar Vermelho, esclareceu Idriss. A costa do lado de cá se chama Eritréia, da
palavra grega pra vermelho (erythrós).[2] ... O
outro lado é aquela ponta da Península Arábica quase abraçada pelo Chifre da
África, o atual Iêmen. Desde há milênios há intenso trânsito de gente e
cultura entre esses dois lados do mar, que em várias ocasiões foram partes de
um só império, com a capital às vezes na Arábia, às vezes na África. O
tapete se aproximava do mar. Idrissa comandou-o pra que parasse, como um helicóptero,
e mostrou: -- Aqui
no estreito Bab-el-Mandab apenas 30 km separam África e Ásia. É o portão de
entrada para o Mar Vermelho, que leva até as portas das civilizações mais
antigas - Egito e Palestina - e de lá para Grécia, Roma e todo o mundo
mediterrâneo. ... “Portão
afora”, por outro lado, temos o Índico, palco do mais movimentado comércio
ligando África, Pérsia, Índia, Indonésia e China, como vocês já sabem. ... Vocês
já imaginaram a importância estratégica do reino que dominava este estreito? ... O
nome desse reino era Sabá. Seu coração ficava lá no Iêmen, porém seu povo
e cultura se espalhavam também para cá, montanhas adentro. Do casamento das
heranças kushita e sabeana é que nasceu esta cultura única, a Etíope. |
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33:
Os primeiros arranha-céus do
planeta Idriss
prosseguiu: -- Durante
milênios a região de Sabá, também já chamada de
“Índia Menor”, foi um dos lugares mais avançados do mundo. Vem daí
boa parte da fama de um Oriente de fabulosa riqueza. ... Por
um lado, tinha o que falta ao resto da Arábia: uma exuberante agricultura,
apoiada pelo bom solo vulcânico e pelas chuvas de monções.[1] ... Por
outro, era o grande mercado de ouro, marfim, sedas, perfumes, especiarias,
ceras, peles... todos os encantos do Oriente e dos trópicos. Dêem uma olhada: Idriss
pegou de novo o Interfer, regulou-o e anunciou: --
Ano 1000 depois de Cristo, 5245 do calendário egípcio, época em que as atuais
metrópoles do Ocidente, como Paris, eram ainda cidadinhas obscuras e - é
preciso dizer - terrivelmente sujas. A
janela se formou, e lá estavam campos verdíssimos ponteados aqui e ali de
castelos. As plantações eram todas em terraços - uma forma de proteger o solo
contra a erosão, coisa que à beira do ano 2000 os agricultores do Brasil ainda
custam a acreditar que é necessária. A paisagem rebrilhava de represas de onde
saíam aquedutos, muitas vezes de mármore.[2] -- Dêem
só uma olhada em San'aa, a capital: -- Que
loucura! Eram
edifícios de cinco a dez andares. A aparência seria a de uma cidade moderna se
não fosse o rico rendilhado decorativo das paredes e janelas, dando ao conjunto
um ar de sonho. Tudo isso em meio a jardins cheios de flores e frutos. -- E o mais importante de San'aa não é visível daqui de cima: é o eficiente sistema de limpeza e esgotos. Coisa que salvaria a Europa das terríveis pestes que ainda a devastarão por séculos, depois deste ano 1000.
... Vejam
também Shibam, no reino vizinho de Hadramaut: -- !!! No
meio de uma área desértica se levantava uma sólida muralha cercando um vasto
bloco de edifícios de 10 a 12 andares. -- E
mal se sabe há quantos séculos já estão aí! Depois
de uns instantes de contemplação pasmada, Idrissa desligou o Interfer e
prosseguiu: -- Quase
mil anos antes de Cristo os hebreus tinham firmado seu domínio lá na
Palestina, e sobre eles reinava Salomão, que ficaria célebre tanto pela
riqueza como pela sabedoria. ... Ora,
os hebreus eram um povo sem tradição marítima, ao contrário de seus vizinhos
fenícios. Assim Salomão fez aliança com o rei fenício Hiram, da cidade de
Tiro[3],
e sua frota conjunta passou a navegar regularmente até Sabá. ... Foi
assim que a rainha de Sabá soube da fama de Salomão e foi a Jerusalém visitá-lo
- uma história que dará muito pano pra manga, pois os árabes acham que ela se
chamava Belkis e vivia do lado de lá, os etíopes que se chamava Magda e vivia
em Aksum - que é pra onde vamos agora.[4]
PARA INTERESSADOS EM
APROFUNDAMENTO Riqueza
e desenvolvimento de Sabá: As imagens provém sobretudo das descrições de El
Mas'udi (séc. X) e Ibn Batutta
(séc. XIV), apud Davidson,
VI, 1 (complementadas com outras fontes). A hipótese que será mencionada no
cap. 37 (domínios do Egito até a Índia) é referida em E. L. Nascimento,
I,1,c. [1]Ventos que sopram no Índico em épocas regulares, metade do ano pro norte, metade pro sul. [2]Aquedutos eram pontes por onde canais d’água abertos passavam sem perder o nível, já que não havia grandes canos. Os “Arcos da Lapa” onde hoje passa o bonde de Santa Tereza no Rio de Janeiro eram originalmente um aqueduto. Nem por isso o nome é “arqueduto”, como pensam alguns, pois deriva de “água” e não de “arcos”! [3]Hoje Sur, no Líbano. Fenício é um nome grego que pegou para os cananeus da costa. [4]Livros de três tradições mencionam a rainha de Sabá: a Bíblia (I Reis), que não menciona o nome; o Alcorão, que a chama de Belkis; e o Kebra Negast etíope, onde é chamada de Magda ou Makeda, conforme a fonte. |
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O tapete deslizou uns minutos pra norte beirando o mar, e aí
virou para oeste, encarando as montanhas. -- Aksum não fica longe da costa, mas seria uma longa
viagem se não pudéssemos voar: está a 2000 m de altitude, no planalto de Tigré.
... Vocês podem imaginar o que é a vida de um país
onde em toda parte se encontram barreiras da altura de 2000 metros? Essa pode
ser uma das razões por que a Velha Abissínia tem tido dificuldades de se
adaptar ao século XX, que cultua a pressa. -- Por que Abissínia?
-- Por causa dos habashan,
nome árabe de uma das antigas tribos que deram origem a este povo. ... A propósito: sugiro regular o tapete pro ano 1520
dC, pois aí estará em Aksum uma pessoa curiosa de se encontrar. Chegaram. Como era de se esperar, não faltavam palácios, igrejas e mosteiros, todos de pedra. O que mais chamava atenção, porém, era um conjunto de monumentos muito altos - podem-se chamar de estelas ou obeliscos, embora não tenham a forma de base quadrada dos obeliscos egípcios. Tinham mais era a forma de espadas de pedra com ponta redonda.
-- Como vocês vêem, são feitos de uma pedra só - são
monolitos, pra quem gosta de grego. O
maior tem 33 metros, a altura de um edifício de 11 andares. É o mais alto
monolito conhecido na face da Terra. Infelizmente o único que chegará de pé
ao século XX é aquele ali, todo entalhado de motivos decorativos
sugerindo os andares de um prédio. Tem 21 metros, o equivalente a 7 andares. São
um exemplo da incrível maestria etíope no trabalho com rochas duras. -- São recentes? -- Não se sabe exatamente quando foram construídos,
mas foi com certeza antes de Cristo. ... Mas vamos. Vamos caminhar até a igreja Mariam
Tsion, ou Santa Maria de Sião. Havia missa solene. Como é costume nas igrejas orientais,
muitos sacerdotes e acólitos, muitas roupas cerimoniais, cantos e incensos. Nas
paredes, inscrições num alfabeto que nenhum de nossos amigos conhecia.
Tentaram se esclarecer numa conversa porta afora. -- Pois esse é o próprio alfabeto etíope. As inscrições e a missa estão em gueez,
a língua dos primeiros tempos do cristianismo em Aksum. Essa língua foi
mudando e acabou virando o amárico,
que se fala aqui hoje ao lado de algumas outras línguas. É mais ou menos como
quando se dizia a missa em latim no Brasil, que fala português, que é uma língua
derivada do latim. -- E a missa aqui não era em latim? -- Não, esta é uma igreja católico-ortodoxa, não
católico-romana. -- Como é isso? -- É somente a igreja católica do lado ocidental da
Europa que tem séde em Roma. A parte oriental tem sua chefia dividida em vários
patriarcados - Constantinopla é séde
da igreja grega, Antioquia da igreja síria, Alexandria da igreja egípcia ou
copta, etc. ... A Igreja Etíope é oficialmente ligada ao Patriarcado de Alexandria e só no século XX
constituirá um patriarcado autônomo. Na prática porém é uma igreja
independente, com seus próprios usos e costumes, e isso desde o ano 300 e
pouco. Estamos em um dos primeiros países cristãos do mundo. Surpreendente, não? -- A esta altura não me surpreendo com mais nada... A
idéia da África como um lugar primitivo está morta e sepultada. Todos aplaudiram alegremente a frase de Túlio. Nisso a
missa terminou. Idrissa se pôs a observar atentamente as pessoas que saíam. -- Ele deve estar aqui. -- Ele quem,
Idriss? -- Mas nosso amigo estava concentrado. -- Ah, só pode ser ele! Era um senhor branco, de uns 60 e poucos anos, acompanhado
da mulher - etíope -, filhos e netos. Ia passando quando ouviu um comentário
qualquer de nossos amigos, e quase saltou: -- Não é possível! Terei ouvido falar...
português? -- Sim senhor! -- adiantaram-se Túlio e
Cristiano. -- Mas... como é possível? E de que região são
os senhores? Não reconheço esse vosso acento.[1] -- Já vamos explicar, mas é um pouco complicado... O
senhor não se incomodaria de dizer antes... quem é o
senhor? -- Pois não, pois não! Pero de Covilhã, ao seu
dispor. -- Pero de Covilhã, o agente secreto português!? -- Se o senhor quiser chamar assim... Por uns instantes houve pura perplexidade. Foi Túlio quem
retomou pé na situação, tomando a iniciativa de perguntar: -- Sr. Pero, há quantos anos mesmo o senhor está na
Etiópia? -- Há... vejamos... há quase 30 anos. Desde 1490 e
pouco. -- É, fica mesmo difícil de explicar -- disseram
nossos amigos consigo. -- O senhor acredita que seja possível viajar no tempo?
Vir de uma outra época? -- Ora, nesses meus anos de Oriente já vi tantas
coisas fantásticas... Não duvido de nada. -- Pois então, Sr. Pero. A gente vem do Brasil. É
uma terra a oeste do Atlântico que os portugueses começaram a colonizar faz 20
anos; isto é, depois de sua chegada aqui. -- A terra que o Rei Dom João mantinha em segredo!
Então eles conseguiram! [2] -- Só que a gente vive... quase 500 anos mais
tarde, entende? Virou um país com muitas cidades maiores que Lisboa, que falam
todas português. -- Impressionante! E o Oriente? A Índia? Eles
conseguiram? -- Faz 22 anos que Vasco da Gama chegou lá. Idrissa interveio: -- Senhor Covilhã, dentro de poucos dias chegará
aqui uma missão portuguesa, chefiada por Rodrigo de Lima e pelo Padre Francisco
Álvares. -- Louvado seja Deus! -- Os senhores terão quanto tempo quiserem pra pôr
as notícias em dia. Se me permite, nós gostaríamos muito de ouvir como o
senhor chegou aqui e o que o senhor aprendeu da Etiópia. -- Mas como não! É uma grande satisfação! Vamos
fazer uma coisa: convido-os a almoçar na minha casa, e aí posso contar com o
devido vagar. ... Mas antes: já viram a igreja? É o santuário
mais sagrado da Abissínia. Guarda uma relíquia...
Os padres dizem que é a verdadeira Arca da Aliança, contendo as Tábuas
da Lei que Deus deu a Moisés. -- Podemos ver? -- Não, não: como nos tempos bíblicos, só há um
sacerdote vivo que entra no Santo dos Santos e a vê. O que se vê em todas as
igrejas são reproduções pequenas da arca, os tabots. -- Mas como... -- Senhores, permitam-me: encaminhemo-nos para minha
casa. Lá eu contarei o que sei. [1]Sotaque. [2]Os historiadores modernos acham que o Rei Dom João II já tinha conhecimento do Brasil antes de Cabral. Alguns, como Van Sertima, acham até que foram justamente os africanos da Costa Ocidental que contaram aos portugueses e a Colombo que existiam terras do outro lado do Atlântico, pois já o teriam cruzado inúmeras vezes. Mas este não é assunto para agora... |
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35:
O
destino de um
espião
português Seguiram
pelas ruas de Aksum em verdadeira procissão - os viajantes do tapete
misturados aos filhos e netos de Covilhã. Logo Túlio, Cristiano e Idriss
tinham uma roda de crianças pelas mãos, quando não pelos ombros e cabeça.
Também a professora Beatriz inventava brincadeiras, ouvia e contava histórias,
ou respondia perguntas das adolescentes sobre sua vida em outra época e
lugar. Logo ao chegar na casa, porém, nossos amigos cobraram do anfitrião
que relatasse a sua história, enquanto a família se preparava para servir a
comida. -- Foi
em 1467 que saí de Portugal a mando de D. João II, eu e meu companheiro
Alfonso de Paiva. Fomos escolhidos porque falávamos o árabe com perfeição.
... Nossa
dupla missão era: localizar os fornecedores últimos das especiarias que
chegavam através de Veneza e dos mercadores mouros[1],
e conseguir informações mais exatas sobre o Reino do Preste João. ... Na
verdade desde o tempo das cruzadas os soberanos e serviços secretos da Europa
já sabiam que esse reino era a Etiópia - mas chegar aqui era o problema. Os
mouros dominavam todos os acessos, e não gostariam de ver uma aliança entre
cristãos onde eles ficassem “no recheio”. Por isso nosso disfarce. Idrissa
pensou consigo nas vantagens que há em ser do século XX, onde é possível a
amizade entre muçulmanos e cristãos sempre que ambos são esclarecidos. É
claro que na casa deste senhor do século XV não era conveniente revelar
que ele mesmo era “mouro”.
E afinal, Covilhã não poderia se queixar, já que ele mesmo tinha
andado disfarçado entre os mouros... O
relato prosseguia: -- Passamos
por Barcelona, Nápoles e Rodes (na Grécia), e finalmente desembarcamos em
Alexandria, onde a comunidade cristã ainda mantém seu espaço. De lá podíamos
seguir por terra, desde que disfarçados - e foram anos
de disfarce até chegar de novo a um território cristão: este aqui. ... Fomos
ao Cairo, onde nos juntamos a uma caravana moura que ia para Áden. -- No
Iêmen -- esclareceu Idriss. -- Lá,
devido a nossa dupla missão, Alfonso e eu nos separamos: eu tomei o rumo da
Índia, ele deveria ter vindo para cá. Só Deus, porém, sabe o que lhe
passou. Nunca mais soube dele, pobre Alfonso. Idrissa
lembrou que nunca ninguém mais soube dele, mas achou melhor continuar só ouvindo: -- Eu,
de minha parte, cheguei ao que queria descobrir: Calicut. De lá passei por
Goa e por Hormuz, porta da Pérsia, e embarquei para as costas da África,
rumo ao sul. ... Aí
fui de cidade em cidade até Sofala, e fiquei sabendo que era possível
navegar pelo sul até o ocidente, o Mar da Guiné. -- A
parte do Atlântico abraçada pela África -- complementou o Dr.
Guerreiro. -- Diziam,
é claro, que não havia nada o que fazer por lá; que o mundo civilizado
terminava em Sofala. ... Pois
bem: regressei daí passo por passo até o Cairo, onde tive a felicidade de
encontrar dois colegas do serviço português. Eles vinham com a mesma missão,
já que havíamos partido há dois anos e não havia notícias de nós. ... Decidimos
que eles levariam ao rei o relatório do que eu já havia descoberto, e eu
prosseguiria em busca da terra do Preste João. ... Havia,
é claro, muitos segredos a desvendar, e viajei muito, antes de chegar aqui.
Fui à Arábia. Sempre passando por mouro, juntei-me às peregrinações e fui
conhecer suas cidades sagradas de Medina e Meca... -- Essa
história é espantosamente parecida com a de um agente inglês, Sir Richard
Francis Burton, que andou revirando Índia, Arábia e África no século XIX --
observou a professora Beatriz. -- Burton, a propósito, foi cônsul em
Santos, no Brasil e traduziu pro inglês Os
Lusíadas de Camões. Pero
de Covilhã continuou: -- Depois
desembarquei em Zeila... -- Na
atual Somália... -- ... já
sabendo que seria a melhor porta para o reino do Preste João. Aí tive que
exercitar minhas artes ao máximo para me aproximar deste reino ainda como
mouro, e do lado de cá ser reconhecido desde o primeiro momento como cristão.
... De
um modo ou de outro cheguei, no ano de 1493, e fui muito bem recebido pelo
jovem neguz Iskindir. Infelizmente no ano seguinte o neguz morreu em combate.
A situação política dentro do reino estava confusa, e aliás ainda está.
Por sorte a rainha Eleni continuou a tratar-me bem, e a aproveitar meus
conhecimentos sobre a Europa e sobre as terras dos mouros. ... Os
etíopes, enfim, deram-me as maiores honras, como os senhores podem ver. Mas
por lá suas razões não me deixaram mais sair daqui. Recebi a mão de uma
nobre dama da corte, tive aqui meus filhos, meus netos... Senhores: a
esta altura, por que razão haveria de sair? ... Gostaria
apenas de passar tudo o que sei ao novo rei... -- Dom
Manuel... -- ... pra
que ele nos envie reforços. Os mouros de Harar têm nos ameaçado gravemente.
Há onze anos a rainha mandou uma embaixada a Portugal, mas ainda não tivemos
resposta. Agora os senhores dizem que uma embaixada de lá está para
chegar... -- A
qualquer momento. -- Louvado
seja Deus! Essa
conversa deixou nossos amigos pensativos sobre como os homens vivem invocando
Deus em benefício de seus interesses parciais, sem entender que, como pai de
toda a humanidade, Ele não toma partido de um ou de outro irmão, mas quer
que todos vivam em paz... A esta altura já tinham visto pelo outro lado as
barbaridades que os portugueses cometeriam em sua missão “cristã”,
acreditando mesmo que isso agradava
a Deus... Túlio suspirou e disse: -- Será
que um dia os homens vão entender? Não
foi preciso explicar. Todos tinham pensado a mesma coisa. PARA INTERESSADOS EM
APROFUNDAMENTO Covilhã:
Há divergências consideráveis entre as enciclopédias consultadas. O quadro
oferecido pela Britannica não só
parece mais consistente, como também é de longe mais interessante para
nossos fins. As datas foram complementadas a partir de Costa
e Silva, pág. 587. Observe-se que o nome é registrado com
diversas variantes: Pero/Pedro, da/de, Covilhã, Covilham, Covilhão. Descoberta
antes de Cabral: Um artigo assinado por Mauro M. dos Prazeres
na revista “Limite” de jan. 94 faz um interessante apanhado sobre o
assunto, referindo-se a historiadores como Armando Cortesão, Jaime Cortesão
e Assis Cintra. Francisco Pinto Cabral, em obra não
consultada (O Português Salvador
Fernandes Zarco, Ed.Thesaurus, Brasília, 1994) defende a presença do
português Diogo de Teive na América em 1452. Quanto à presença africana na América
pré-colombiana, tem sido investigada há mais de cem anos. Em
1976 Van Sertima publicou um
vasto apanhado a respeito, They Came Before Columbus (Eles Vieram Antes de Colombo).
Infelizmente, na redação do presente livro pudemos contar apenas com a
resenha desse trabalho por E. L. Nascimento. Padre
Francisco Álvares: Membro da delegação que encontrou Covilhã na Etiópia
em 1520, escreveu o primeiro relato ocidental detalhado sobre essas região: a
Verdadeira Informação das Terras do Preste João. [1]Na época os europeus chamavam “mouros” aos muçulmanos em geral, não só ao povo do Noroeste da África como seria mais certo. |
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36:
A
endjera e o
mistério da
arca Nesse
momento foi anunciada a endjera. Dirigiram-se todos a lavar as mãos - os da casa guiando os
visitantes -, e em seguida foi trazido um turíbulo queimando incenso. A mesa e
em torno foram defumados, o turíbulo colocado do lado de fora da porta
principal, e aí se disse uma oração em gueez. Só então foi colocada na mesa
uma grande bandeja contendo a endjera e o uót.
-- A
palavra endjera é como “pão nosso
de cada dia” -- explicou o filho mais velho de Covilhã: -- Se
refere a este pão, mas além disso significa “comer” ou “comida” em
geral. Tratava-se
de um “pão em folhas”, como panquecas ou chapátis. Cada pessoa pegava sua
porção de uót, um guizado temperadíssimo, com a própria endjera, direto da
bandeja central. -- O
uót pode ser de carne de vaca ou de carneiro, como este aqui -- explicou a
esposa de Pero. -- O segredo está na mistura de pimentas e outras
especiarias. A
boca era refrescada com goles de suha, uma espécie de cerveja caseira, à base
de cevada. Conversas disto e daquilo rolavam, despreocupadas, em puro clima de
confraternização. Foi
apenas depois de terminada a refeição e as mãos lavadas de novo, que
Cristiano tomou a iniciativa: -- Senhor
Pero, o senhor ficou de nos contar o que sabe sobre a Arca da Aliança... Estamos
curiosos. -- Ah
sim! É claro. ... Como
os senhores sabem, na história bíblica a Arca era uma caixa de madeira de acácia,
revestida de ouro, construída baixo instruções divinas expressas. Foi lá que
Moisés guardou as “tábuas” de pedra contendo a lei dada por Deus aos
hebreus, ou povo de Israel. Era o sinal da presença de Deus entre o povo, e por
séculos foi guardada na “tenda da reunião”, até que Salomão construiu o
grande templo de Jerusalém, transferindo a arca para lá. ... Pois
bem, existe aqui na Etiópia um livro chamado “A Glória dos Reis” (Kebra
Negast), que conta a seguinte história: Em
tempos antigos os etíopes eram governados apenas por rainhas, escolhidas entre
donzelas, as quais ficavam proibidas de casar. Tal era a situação de Magda,
Rainha de Sabá, que reinava a partir de uma aldeia próxima ao local da futura
Aksum.[1] A
rainha ouviu falar da sabedoria de Salomão e apaixonou-se por ele de coração.
Decidiu visitá-lo e partiu para Jerusalém, levando riquíssimos presentes, e lá
ficou por sete meses. Quando
estava para partir, Salomão teve o sentimento de que talvez o Senhor lhe
tivesse trazido aquela mulher cheia de beleza e inteligência para que tivesse
um filho dela. Devido à antiga interdição abissínia, Salomão teve de lançar
mão de vários estratagemas, mas enfim a rainha concordou. Nessa
noite, Salomão teve um sonho: um Sol resplandescente, que iluminava a terra de
Israel, se deslocava para a Etiópia, e ficava lá para sempre. Pois
bem: a rainha se foi, e lhe nasceu um menino que recebeu o nome de Menelik.
Quando este cresceu, quis conhecer e aprender do pai, e a rainha o mandou a
Jerusalém. Junto foi
o pedido de que Salomão sagrasse Menelik, a fim de que os etíopes
pudesse enfim ter um rei homem. O
rei hebreu concordou, e quando chegou a hora de o jovem partir, ordenou aos
nobres de Israel que mandassem seus filhos mais velhos com Menelik para a Etiópia,
a constituir sua corte. Acontece
que esses jovens não podiam suportar a idéia de viver longe da Arca da Aliança,
a fonte da força e inspiração de Israel. Como a viagem era inevitável,
decidiram que levariam a Arca consigo, sem contar nada a Menelik. E
era essa mesmo a vontade do Senhor, pois a viagem transcorreu de milagre em
milagre: os carros e animais voavam, fazendo em um dia o percurso de treze,
passando por sobre o mar que os saudava com ondas alegres, e assim por diante.
Salomão, mesmo entristecido, teve que aceitar que o Senhor tinha escolhido uma
nova terra, a terra abissínia ou etíope. -- Enfim
-- concluiu Pero de Covilhã -- se é verdade não sei, mas os etíopes
dizem ser essa o origem dos seus reis e da arca que está guardada em Mariam
Tsion. [1] Este tipo de história costuma conter fatos mesclados com símbolos e mitos reciclados de várias fontes. Aqui “Sabá” não fica na Península Arábica mas no próprio continente africano. Quanto ao nome da rainha, ver rodapé no cap. 32. |
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-- Pelo
que eu tenho estudado -- interveio o Dr. Guerreiro -- essa pode
ser uma explicação fantasiosa de um acontecimento verdadeiro. Todos
se voltaram pra ouvir: -- Parece
que esse livro, o Kebra Negast, só foi escrito em 1300 e pouco, quando os reis
precisavam reforçar sua autoridade. No entanto a devoção à Arca da Aliança
existe no país desde há muito, muito tempo.
... Naturalmente
os estudiosos ocidentais sempre consideraram a arca de Mariam Tsion uma imitação,
e a história toda como superstição. Mas, por outro lado... a verdadeira arca
de fato sumiu de Jerusalém, e ninguém sabe se ainda existe ou onde está. Isso
até deu origem a filmes de aventura como “Caçadores da Arca Perdida”. ... Em
1992 um pesquisador inglês publicará os resultados de cinco anos de andanças
e pesquisas, dizendo que a arca de Mariam Tsion é a verdadeira. No século XX
estará numa capela especial mandada construir por Hailé Selassié, sem
interromper a tradição de que apenas um sacerdote vivo, o Guardião da Arca,
pode vê-la. -- Mas
como veio parar aqui? -- Segundo
esse senhor Graham Hancock, quando lá por 650 aC o rei hebreu Manassés
introduziu cultos a outros deuses no templo de Jerusalém, sacerdotes zelosos
teriam levado a arca para um templo construído pela comunidade judaica na ilha
de Elefantine, no Egito. -- Conhecemos
essa ilha! -- E
esse templo de fato existiu. Uns 200 anos mais tarde, porém, essa comunidade
teria se retirado para o Lago Tana, fonte do Nilo Azul... -- Conhecemos
esse lago!!! -- ... contruindo
outro templo na Ilha do Perdão. Ora, sabe-se que a região ao norte do Lago
Tana sempre concentrou a maioria dos falachas,
negros seguidores do judaísmo, que existem ainda no século XX. Os
falachas não possuem os livros mais recentes do judaísmo, como o Talmud, o que
prova a antigüidade da sua tradição. ... Além
disso, provavelmente é verdadeira a história de que uma rainha de Sabá foi
visitar Salomão, e mesmo que ela vivesse lá no Iêmen e não em Aksum, o
intercâmbio cultural entre essas duas regiões era forte. Alguns autores creem
que Sabá, nessa época, tinha domínios desde o Egito até a Índia - mas mesmo
se não for assim, é fato seguro que havia ligação cultural entre a Etiópia
e Israel pelos dois lados: o kushita (do Nilo) e o sabeano. ... Assim,
quando no ano 341 dois jovens cristãos vieram parar aqui, o conhecimento do
Antigo Testamento era bastante amplo na sociedade etíope, que não teve
dificuldade em entender a linguagem da nova fé. Muito rapidamente se formou uma
Igreja Etíope que
- agora segundo o Sr. Hancock - teria “herdado” a arca da comunidade da Ilha
do Perdão, levando-a para a igreja de Mariam Tsion. -- E
esses dois jovens cristãos? -- perguntou alguém. -- São
os irmãos Frumêncio e Edésio -- interveio Pero de Covilhã. -- Aqui
a história deles é tão conhecida como a dos apóstolos Pedro ou Paulo na
igreja do Ocidente. |
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38:
A
história de Frumêncio e Edésio -- Frumêncio
e Edésio eram dois irmãos da cidade de Tiro. -- Desta vez era o filho
mais velho de Covilhã quem tomava a iniciativa de contar. -- Eram jovens
e cristãos, o que naquela época não era coisa corriqueira, mas indicava
coragem: naquela época os romanos mandavam em todo o Mediterrâneo, até lá
na Palestina, e fazia poucos anos que haviam parado de perseguir os cristãos
. ... No
ano 341 os dois embarcaram em um navio para as Índias,, junto com seu mestre,
o filósofo Merópius. Edésio era meninote, Frumêncio um pouco mais velho. A
viagem de ida correu sem problemas. Na volta, porém, havia uma situação de
conflito entre a Etiópia e Roma devido à quebra de acordos, e o navio foi
atacado ao fundear em um porto do Mar Vermelho. Merópius e todos os outros
foram mortos em combate. Edésio e Frumêncio, únicos a escapar, foram
encontrados mais tarde estudando embaixo de uma árvore, e trazidos como
escravos ao neguz, ou seja, o rei de Aksum. ... Pouco
a pouco o imperador foi reparando que os dois jovens escravos brancos tinham
grande cultura e que eram dignos de confiança. Edésio passou a servidor de
vinho real... -- Isso
é que é confiança!... -- ... e
Frumêncio a encarregado da correspondência e tesoureiro. -- É
a história do avô de Púchkin em negativo! -- observou Túlio.[1] -- Quando
o rei morreu, a rainha regente deu liberdade aos irmãos, mas pediu que
permanecessem na corte colaborando na educação dos príncipes. -- Era
o primeiro contato da Etiópia com a cultura do Mediterrâneo? -- De
modo nenhum. A língua grega era comum na corte já bem antes de Cristo. ... Pois
bem: os irmãos aproveitaram a oportunidade para difundir e defender o
cristianismo, que a essa altura já existia entre o povo. Quando chegavam
mercadores cristãos à corte, Frumêncio pedia ajuda para as comunidades
locais. ... Quando
o príncipe Ezana atingiu a maioridade e tornou-se neguz os irmãos pediram
para regressar à sua terra. Edésio terminou dirigindo a comunidade cristã
de Tiro. -- Foi
lá -- complementou o Dr. Guerreiro -- que Edésio encontrou o escritor romano
Rufino, através de quem a história ficou conhecida no Ocidente. -- Já
Frumêncio foi a Alexandria pedir ao patriarca Atanásio que mandasse um
supervisor oficial para os cristãos etíopes[2].
Atanásio consagrou o próprio Frumêncio, que regressou à Etiópia e logo
batizou a família real. Pouco tempo depois podia-se ver o símbolo da cruz
nas moedas de ouro do Reino de Aksum. -- É
bom lembrar que mal fazia 20 anos que o cristianismo tinha sido admitido por
Roma! -- lembrou o Dr. Guerreiro. A
esposa de Pero de Covilhã acrescentou: -- Pouco
mais tarde vieram nove monges sírios que levaram o cristianismo além de
Aksum, ganhando a admiração do povo pela vida de trabalho e modéstia que
levavam nos mosteiros que fundavam pelo interior. São conhecidos como Os
Nove Santos, enquanto Frumêncio é
chamado Abá Salamá, ou seja, Pai
da Paz. Pero
concluiu: -- Foi
assim, enfim, que surgiu aqui no seio da África um dos primeiros países
cristãos do mundo. ... Mas,
a propósito -- lembrou Covilhã -- os senhores estiveram em
Lalibela? -- Ainda
não. -- Pois
precisam ir. Não sei se em algum lugar do mundo a arquitetura cristã
realizou obras tão exóticas. -- É
de fato nosso próximo destino -- interveio Idriss. -- Temos
prevista lá uma reunião geral. Sr. Pero, a hospitalidade de vocês está
maravilhosa, mas precisamos seguir... PARA INTERESSADOS EM
APROFUNDAMENTO Endjera:
Baseamo-nos
no depoimento da advogada paulista Orlanda Campos Gentile, A Etiópia que
Eu Vi, e parcialmente em Pankhurst. Arca
da Aliança: O trecho bíblico da história se encontra em Êxodo cap. 24,
25 e seguintes, e em I Reis 8. O conteúdo da lenda relatada no Kebra Negast
encontra-se em Costa e Silva cap. 6,
incluindo fragmentos da transcrição em português seiscentista pelo jesuíta
Pero Pais. A hipótese moderna de seu deslocamento para a Etiópia é
defendida por Graham Hancock a
partir de cinco anos de pesquisas de campo (ver Bibliografia). Posicionamento
da Etiópia na tradição judaico-cristã: O Kebra Negast pode até só ter
sido posto no papel depois de 1300 dC (segundo os autores seguidos por Costa
e Silva), mas seria pouco provável que sua simbologia não refletisse
um sentimento real da cultura etíope em relação à corrente religiosa
judaico-cristã. Em nós ocidentais o primeiro contato com esse mythos
provoca não raro a impressão de uma apropriação indébita e espantosamente
sem cerimônia da tradição alheia. Isso apenas revela, no entanto, o quanto
de preconceito ainda pode jazer oculto em nós. Cabe lembrar que 350 anos depois de Salomão
Jerusalém terá seu templo destruído e sua população escravizada. A
independência judaica será parcialmente restaurada em algumas ocasiões, porém
desde 135 dC, com a interdição total de Jerusalém aos judeus pelos romanos,
não haverá nem sombra de estado judaico na Palestina até o século XX. A
simples lembrança desse fundo histórico pode nos ajudar a ver o mythos com uma perspepctiva mais conseqüente. Lembre-se ainda a história do batismo de
um alto funcionário de “Candace, rainha da Etiópia”, em de Atos 8:26-39.
Na época a palavra Etiópia designava Kush,
sendo “candace” ou “kentake” o título da soberana. À parte o fato de
que Kush é uma das fontes da “nova Etiópia”, Nilo Azul acima,
salientamos o detalhe de que “o etíope tinha vindo a Jerusalém para
adorar”, claro atestado do grau de presença da fé javista África adentro
(sem nem falar aqui de suas possíveis origens africanas, tema tocado no cap. 23).
Não há exagero, portanto, quando a
cultura etíope se comporta como absolutamente “de casa” no contexto
judaico-cristão. Existe de fato um entranhamento desde as origens, e sem dúvida
maior que o de qualquer região européia! Frumêncio
e Edésio: Todas as fontes, inclusive o Dicionário dos Santos de Donald Attwater,
remetem a Rufino, escritor cristão romano (ca. 345-410), que diz ter ouvido o
relato da boca do próprio Edésio, em Tiro. Naturalmente os nomes estão
latinizados. Para Frumêncio, Costa e
Silva menciona também as versões Frémnatos ou Fremonatos, que soam
gregas. Alguns detalhes importantes da história foram encontrados somente em Pankhurst. Rei
Ezana: Os irmãos Ezana e Sezana (She'azana) parecem ser os
mesmos Abraha (Abrá) e Atsbaha (Asbá) de outros documentos. O uso de
diferentes nomes em diferentes fases da vida é comum entre os monarcas etíopes,
como podemos ver ainda em Tafári / Hailé Selassié. Relações
Etiópia-Roma: Segundo o historiador Procópio, Justiniano (482-565),
imperador de Bizâncio, tinha trato com o neguz para que os etíopes lhe
comprassem na Índia grandes quantidades de seda da China, evitando que os
persas açambarcassem o mercado. Apesar de esse dado não ter cabido em nossa
história por razões cronológicas, parece-nos digno de menção. |
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Logo
após a previsível sessão de despedidas viram-se de novo voando sobre a
infinita sucessão de vales. Túlio reparou desta vez na grande quantidade de
plantações, inclusive nos altos terraços das encostas. -- A
Etiópia -- falou Idriss -- é uma das terras que merecem o nome de
“mães da agricultura” no planeta. -- Mas
como, Idriss? A gente está acostumado a ver o nome Etiópia como sinônimo de
fome... -- Pra
ver as voltas que o mundo dá! Nos anos 80 do século XX houve de fato
grande fome na Etiópia devido à coincidência da instabilidade política com
uma terrível seca. ... O
mundo todo resmungou pra mandar ajuda, como se a causa fosse “a incompetência
desses africanos”. Na verdade a agricultura tradicional etíope tem muito a
ensinar ao mundo ainda hoje, especialmente quanto à preservação de linhagens
de plantas. Caso conhecessem melhor o assunto, os que resmungaram entenderiam
que a tal ajuda não passava de uma retribuição, pois grande parte das plantas
alimentares deste mundo saiu daqui. -- Quê
plantas, por exemplo? -- Olhe,
não posso dizer muito pois não sou especialista, mas começa pela bebida mais
popular do mundo, o café, e segue com um dos temperos mais populares: a
mostarda. Já imaginou as lanchonetes e bares deste mundo sem essas duas coisas?
... Mas
tem mais: tem o melão e a melancia, o quiabo e o agrião. Tem o feijão-guandu,
um dos melhores alimentos tropicais para homens e animais, e tem o gergelim, que
além de delicioso fornece um dos óleos mais saudáveis que existem. Tem
diversos tipos de cará, que parecem batata mas são mais saudáveis, tem
cereais como o sorgo e o painço... e tem nada menos que o chamado rei dos
cereais: o trigo, de modo que a cada café com pão vocês deveriam agradecer à
Etiópia. -- O
trigo!? Não, não é possível. -- Existem
muitas variedades de trigo, e é verdade que muitas vêm de outras regiões, mas
algumas das principais variedades têm seu lar original aqui nestas montanhas e
vales, como os especialistas demonstraram. -- Pensei
que já tivesse tido todas as surpresas desta viagem! -- Pois
estou certo que ainda terá muitas mais. Só por exemplo: não é apenas comida
que o mundo deve à agricultura etíope, mas roupa também: foi daqui que saíram
as espécies mais importantes da principal fibra têxtil do mundo: o algodão.
Assim não é só a cada café com pão que vocês deveriam lembrar da Etiópia,
mas também a cada vez que vestem camiseta e jeans. Idrissa
olhava a paisagem enquanto falava e conduzia o tapete. Nesse momento porém se
voltou para Túlio e flagrou uns olhos molhados, a ponto de escorrer. -- Ué,
Túlio, o que foi? -- É
difícil de explicar, Idriss. No que você falou do algodão me veio a sensação
de que o toque da camiseta era uma carícia, um abraço de mãe... Aí
lembrei de um dia em que ouvi um pessoal fazendo piadas com a fome da Etiópia,
um pessoal que não tem idéia nem do que é a Etiópia, nem do que é fome... O
engraçado é que a lembrança não me deu raiva, deu é uma espécie de
tristeza lá no fundo, difícil de explicar... -- Eu
entendo, meu amigo. Infelizmente não dá pra falar deste assunto sem tristeza. ... Veja:
a agricultura aqui tem milhares de anos, e alguns desses terraços já têm
quase isso; mas, como vocês vêem, muitos deles já estão abandonados. No século
XX a maior parte terá interesse apenas arqueológico, e não agrícola. Em
outras palavras, serão ruínas. Idriss
passou de súbito a mão nos fios dourados do tapete e a imagem estremeceu. Um
instante depois anunciou: |