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TRÓPIS E ANTROPOSOFIA EM DIÁLOGO Ralf Rickli Entre as dezenas de
fontes que ajudaram a inspirar o trabalho Estes 3 artigos olham por 3
diferentes ângulos e graus de profundidade: Você pode escolher pelos
títulos gerais e dos capítulos Artigo
1 (informativo): Artigo
2 (esotérico): Artigo
3 (metodológico): UM
EPÍLOGO-APELO |
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UM EPÍLOGO-APELORalf Rickli Um dia, faz muitos
anos, fomos convidados a uma Festa de Conhecimento na mansão de uma senhora notável,
uma grande-dame, Lady Anthroposophy. E que festa foi! Nossa vida nunca
mais poderia ser exatamente a mesma depois de uma tal festa! Porém, curiosamente, nessa mesma
festa ficou evidente que não poderíamos ficar muito tempo na mansão. Que
tínhamos que sair pelo mundo. E, de fato: fomos rolando de casa em casa, até que nos
vimos... num cortiço. Não dos piores, sem dúvida, mas um cortiço. Um cortiço
a reformar. E aí, de repente, veio a
estranha idéia de que cabia retribuir o convite de Lady Anthroposophy
oferecendo aqui, no nosso ‘cortiço alternativo’, uma festa igualmente
espiritual: a Festa do Convívio Universal. Naturalmente não temos muita
coisa a oferecer, então pensamos em recebê-la com um buquê das flores mais
bonitas que crescem no nosso jardim ideal (infelizmente o cortiço nem tem
espaço para um jardim real!): um buquê de Pluralia pluralistica, flor de
pétalas incontáveis e de que não há duas iguais, porém que surpreendentemente
gera sempre combinações belíssimas – desde que não se tente arrancar nenhuma
pétala, nem retirar nenhuma das flores do buquê. Enfim, temos pleno conhecimento
dos incontáveis e dolorosos conflitos que ocorreram e ainda ocorrem na família
de Lady Anthroposophy, a ponto de quase impedi-la de exercer seu nobre papel
inspirador e orientador para a população em geral. E nos ensinaram que essas
flores – precisamente essas, nenhuma outra – têm um poder absolutamente milagroso
de desfazer esse tipo de mau-olhado ou maldição. Na casa onde essas flores estão
presentes – não só nos contaram, nós já vimos o milagre! – as pessoas ficam
bastante estranhas; cada uma delas sai fazendo ou dizendo coisas extravagantes,
absolutamente diferentes umas das outras – porém, de algum modo, todas essas
coisas se combinam, umas compensam as outras, e no final nunca sai nada de
errado. A cada dia as coisas acontecem de um jeito novo, cada vez mais
interessante, bonito, eficiente e inspirador. Apenas
se alguém tenta condenar ou impedir a ‘extravagância’ de outro, essas flores
murcham e morrem. Mas isso raramente acontece, pois o poder das flores consiste
justamente em prevenir que alguém tome esse tipo de iniciativa. E elas o fazem
exalando no ar um aroma sutil e preciosíssimo, o chamado Perfume de Pluralismo,
também conhecido como Essência da Liberdade. Falemos francamente: ‘nenhum
reino pode subsistir dividido contra si mesmo’ (como está nos Evangelhos). E
todos sabem que ‘divisão interna’, ‘luta interna’ têm sido palavras constantes
em toda a História do movimento antroposófico. Isso não se resolve apelando à
fidelidade a Rudolf Steiner, pois com freqüência a luta é entre diferentes imagens
de como ser mais fiel a Rudolf Steiner! Acontece que, ao contrário do
que parece a um olhar superficial, nunca, em nenhuma instituição, a divisão se
dá porque alguém propõe algo de inaceitável, ou mantém uma posição inaceitável,
e sim pelo fato de que alguém se dê o direito de julgar inaceitável alguma proposição.
Nenhuma tese positiva, original (isto é, que já não constitua negação de ou
ataque a uma outra) contém em si mesma a possibilidade de luta; a luta começa
no ato de negar a alguma tese ou pessoa o direito a existência nesse círculo,
tentar suprimi-la, calá-la ou excluí-la, recusar-se a conviver com ela. Com muita freqüência isso toma a
forma de ‘defender a pureza’ de algo; de (com o poder de um galo que canta para
fazer o Sol nascer) tentar impedir o desastre histórico que seria causado por
sua contaminação. Isso, porém, é de competência exclusiva do Mundo Espiritual,
que seleciona através da História as coisas que nós aqui, seres humanos,
vamos criando! A nenhum ser humano, pelo menos em nossa época, o mundo espiritual
delega a autoridade de fiscalizar e selecionar as criações de outro! (À idéia
de que houvesse essa autoridade entre pessoas, não importando em que campo do
saber ou da vida, Rudolf Steiner chamava de ‘jesuitismo’). E se alguém propuser uma coisa
excessivamente imprópria ou extravagante? A única reação não-destrutiva
seria propormos no lugar uma coisa que julgássemos mais própria – deixando
em seguida que o mundo escolhesse (o que equivale a ‘confiar na ajuda
sempre presente do mundo espiritual’), sem jamais invocarmos qualquer princípio
de autoridade, ou de mais proximidade com a autoridade, para tentarmos forçar a
adoção da nossa proposta – e muito menos fazermos um único gesto ou dizermos
uma única palavra contra a pessoa que propôs aquilo de que discordamos,
contra sua imagem, sua posição na sociedade, e seu direito de propor
abertamente seja lá o que for. A cada vez que
alguém propõe ou publica uma nova idéia no meio antroposófico mundial, aparecem
imediatamente dezenas de colegas para apontar tudo o que lhes parece não
prestar naquela idéia, e – mais grave – por que é que o autor não tem
competência ou não merece crédito! Onde ficou já a positividade, os ‘dentes
lindos do cachorro morto’ das primeiras lições de Antroposofia? Será que nos
níveis superiores elas perdem a sua validade? Apesar de que, em princípio,
toda ciência dependa de debate crítico, creio que nós, especificamente, estamos
precisando de um tempo de penitência em que todo impulso crítico seja empregado
apenas na autocrítica. Se todos os antropósofos do
mundo se propusessem a, durante dois anos, apenas apontar o que consigam ver de bom em qualquer coisa que outro antropósofo publica, propõe ou faz, simplesmente guardando silêncio sobre os
aspectos que lhe pareçam errados ou de má qualidade... com toda certeza depois
desses dois anos a vida interna da Antroposofia começaria a mostrar novo vigor,
e as exalações que chegam ao mundo em geral teriam perfume garantidamente agradável
(quando até agora têm inegavelmente suscitado algumas interrogações). E se conseguíssemos manter esse
exercício por sete anos, então se chegaria coletivamente a um estado de
transbordante entusiasmo... acompanhado de auto-evidente autoridade moral – um
poder sem o qual é impossível realizar as tarefas históricas que foram
designadas à Antroposofia, de modo que se essa não o cultivar o mundo
espiritual recorrerá a outros agentes, ainda que não tão preparados, deixando a
Antroposofia como caricatura (des)animada do que deveria ter sido. Tudo de que estamos falando se
resume em eleger uma das incontáveis proposições de Rudolf Steiner como
pólo de referência central, fixo e inquestionável, por ser o único princípio
que tem o poder de garantir a si mesmo e a todos os outros: liberdade absoluta
na vida espiritual. A esse mesmo princípio
demos forma prática, ao longo de anos de ‘peregrinação’ e enquanto trabalhamos
aqui no nosso cortiço, tentando fazer dele uma pequena jóia – a que chamamos o
Princípio do Pluralismo Sistemático. Essa pequena e poderosa jóia queremos
oferecer com sinceridade à Antroposofia, para uso em seu cotidiano como talismã
e como ferramenta prática, como agradecimento pela Festa de Conhecimento em que
nos recebeu. São
Vicente, 7 setembro de 2003 Ralf Rickli
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