TRÓPIS E ANTROPOSOFIA EM DIÁLOGO
3 artigos e um apelo

Ralf Rickli

Entre as dezenas de fontes que ajudaram a inspirar o trabalho 
da Trópis ( www.tropis.org ) encontra-se  a Antroposofia  
(o que é? veja adiante). 
Como é
a relação entre elas (se existe) não é algo tão fácil de definir. 
Pois as duas tem suas complexidades...

Estes 3 artigos olham por 3 diferentes ângulos e graus de profundidade:
de uma apresentação bastante light das duas 
à discussão das condições para uma Ciência do Espiritual (é possível?)
passando por um olhar esotérico nada light sobre 
o drama de viver & atuar HOJE e NO BRASIL.

Você pode escolher pelos títulos gerais e dos capítulos
qual artigo você quer visitar primeiro. 
E esperamos que ache que vale a pena conversar mais conosco!
Use para isso o e-mail rr@tropis.org

Artigo 1 (informativo):
A TRÓPIS, SUA FILOSOFIA E A ANTROPOSOFIA  EM UM RÁPIDO OLHAR
• existe relação? • mas não tem cara... • sete parágrafos de antroposofia • seis parágrafos sobre a filosofia do convívio e sua origem • o convívio da filosofia da convívio com a antroposofia

Artigo 2 (esotérico):
PREPARAÇÃO PARA A SEXTA ÉPOCA: A TRÓPIS COMO ESPAÇO DE 
INVESTIGAÇÃO PRÁTICA  DA LIBERDADE E DA COMPAIXÃO
• do que (não) trataremos • uma época de penúria de alma e sua transformação • a abordagem da trópis a isso • a sexta época e a radicalização da compaixão • o horror denegado por trás do brilho  e o brasil como modelo negativo • o enfrentamento social da opressão arimânica • duas questões abertas 
• destino, liberdade e necessidade

Artigo 3 (metodológico):
RELACIONANDO-SE COM A ANTROPOSOFIA  COMO DISCURSO CIENTÍFICO
• espiritual é sinônimo de religioso? • características universais do discurso religioso • o discurso científico e sua condição fundamental • chegando à transcendência na fidelidade à própria essência • menos! (uma "carência negativa" dos nossos tempos) • para que um sonho não seja em vão

UM EPÍLOGO-APELO: a festa de Lady Anthroposophy e sua retribuição 

PARA TODOS OS TRABALHOS DESTE AUTOR 
QUE VOCÊ ENCONTRAR NA INTERNET:

BEM-VINDO! Você tem à disposição nestas páginas trabalhos que são fruto de longos anos de estudo, elaboração e sacrifícios. Por essa razão esclarecemos que seu uso está sujeito às seguintes condições morais:

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  • Porque o autor não recebeu nada para colocar seu trabalho à disposição, porém teve custos para desenvolvê-lo.
  • O autor vive em situação econômica precária, mantendo várias pessoas (adultos e crianças) cujas condições são ainda mais difíceis.
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3. O autor e a Associação Trópis aceitam que você faça doações solidárias de qualquer valor que os ajudem a continuar oferecendo seu trabalho ao mundo, mesmo que não tenha usado conceitos daqui em trabalhos remunerados!

CONTATO: rr@tropis.org, rr-tropis@uol.com.br 

 

Artigo 2 (esotérico):
Preparação para a Sexta Época: 
a Trópis como espaço de investigação prática
da Liberdade e da Compaixão


Ralf Rickli -
fundador da Trópis. Tradutor de Rudolf Steiner,
ex-docente de Fundamentos Antroposóficos no IBD / Botucatu.

2.1 - DO QUE (NÃO) TRATAREMOS

2.2 - UMA ÉPOCA DE PENÚRIA DE ALMA E SUA TRANSFORMAÇÃO

2.3 - A ABORDAGEM DA TRÓPIS A ISSO

2.4 - A SEXTA ÉPOCA E A RADICALIZAÇÃO DA COMPAIXÃO

2.5 - O HORROR DENEGADO POR TRÁS DO BRILHO  E O BRASIL COMO MODELO NEGATIVO

2.6 - O ENFRENTAMENTO SOCIAL DA OPRESSÃO ARIMÂNICA

2.7 - DUAS QUESTÕES ABERTAS

2.8 - DESTINO, LIBERDADE E NECESSIDADE


2.1 - DO QUE (NÃO) TRATAREMOS

Podemos começar afirmando que o trabalho da Trópis só pode ser compreendido em todo seu alcance por quem se dispuser a levar em conta níveis sutis da realidade – quer coloquemos esses níveis sob o rótulo ‘Imaginário’, sob o rótulo ‘Espiritual’ ou ainda outros.

Como a Antroposofia dispõe de um rico instrumental e de um vasto referencial de estudos nesses campos, é sem dúvida útil usá-los para olhar a Trópis – bem como, naturalmente, experimentar usar critérios da Trópis (os da Filosofia do Convívio) para olhar a Antroposofia. O fato de que um dos espelhos seja gigantesco e o outro de bolso absolutamente não prejudica esse ato de fairplay.

Um inventário inicial de quê idéias antroposóficas se mostram mais presentes nas visões de trabalho e na prática cotidiana da Trópis pode mostrar o seguinte:

a arte como caminho privilegiado de educação (embora não necessariamente usemos as técnicas e estilos usuais nos meios antroposóficos – ponto cuja discussão não cabe no momento);

• combinação de arte e conhecimento como meio de transcendência (de acordo com Goethe: ‘quem tem ciência e tem arte tem religião’);

ensino em épocas temáticas;

respeito absoluto à individualidade humana;

prevalência da qualidade de encontro humano sobre todo e qualquer outro critério no trabalho da instituição;

convívio como arte (Arte Social);

a idéia geral da Trimembração Social – como instrumento de análise, planejamento, decisão e administração;

a iniciativa inteira como resultado da busca de uma compreensão ao mesmo tempo racional e transcendente da realidade – como a proposta por Rudolf Steiner.

No momento não é viável um estudo amplo de todos esses pontos, que apenas deixamos registrados, porém nos parece fundamental colocar um pouco mais à disposição sobre a natureza profunda do nosso trabalho. Para isso nossas atividades de tradução e revisão sugeriram diversas pistas interessantes nos últimos anos – algumas das quais queremos desenvolver um pouco a seguir.

Não será um texto de introdução à Antroposofia – por isso empregaremos sem maiores explicações diversas expressões que podem soar bastante estranhas aos leitores não familiarizados. Demos porém um tratamento diferente a algumas idéias de especial importância para nossa argumentação, tentando ‘traduzi-las’  em termos filosóficos mais característicos deste início de século XXI – de modo que podem soar estranhos também para quem é familiarizado com a Antroposofia!... Afinal, uma certa medida de estranheza estimula e renova a compreensão. Esperamos ter acertado a medida!

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2.2 - UMA ÉPOCA DE PENÚRIA DE ALMA E SUA TRANSFORMAÇÃO

Entre inúmeros textos de Rudolf Steiner com o mesmo sentido, queremos destacar a palestra IV do GA (volume das Obras Completas) 168, de 1916 – no catálogo da Editora Antroposófica com o nome Carências da alma em nossa época. (O volume todo deve ser publicado em breve pela Sociedade Antroposófica em forma de apostila, com tradução nossa. Demos aí preferência à expressão ‘penúria de alma dos nossos tempos’) – e ainda a palestra do GA 159, de 1915, publicada em inglês como Preparing for the Sixth Epoch.

De todos esses textos ressalta a afirmação de que sempre cabe às pessoas que se envolvem com efetivo conhecimento espiritual trabalharem na preparação da época cultural seguinte.

Segundo Steiner, nossa Quinta Época Pós-Atlante nos ameaça permanentemente com (1) o estranhamento entre os seres humanos, a incapacidade de se compreenderem, a desumanização das relações sociais; (2) a concentração de autoridade nos especialistas dos diversos campos, tentando reduzir a autonomia dos indivíduos; (3) a negação do espírito no conhecimento, o que, para Steiner, fará a ciência atual ser vista no futuro como superstição.

Observação nossa: conhecendo um pouco os usos da palavra Geist na filosofia alemã, sugerimos não relacionar ‘espírito’ primordialmente com ‘religiosidade’, e sim com a presença na Realidade de intenção, sentimento, consciência e sentido. A negação disso não está no uso do rótulo ‘materialismo’ nem na rejeição da palavra ‘espírito’, e sim, primordialmente, na busca de fazer do acaso o senhor último das origens.

Retomando: a humanidade só estará preparada para os passos evolutivos que a esperam na Sexta Época (daqui a muitos séculos) se essas tendências da Quinta Época forem respondidas desde agora com...

(1) ... a conquista de novas formas de entendimento entre os seres humanos – generalizadas: Steiner diz ‘entendimento social’. Isso não pode ser alcançado partido-se de programas ou ideais abstratos, mas somente do aprendizado, por cada pessoa, de uma antropologia e psicologia práticas, um aprendizado de como são os diferentes seres humanos. Steiner acentua várias vezes o caráter prático, não abstrato desse aprendizado:

Quando surgem sociedades, elas deveriam surgir (...) de tal modo que os seres humanos que se encontram nessa sociedade sejam o seu motivo principal, e que o que possa resultar resulte dos intercâmbios recíprocos desses seres humanos objetivos. ... Toda conversa sobre programas e estatutos é apenas uma concessão ao mundo; trata-se mesmo é do viver conjunto de indivíduos, que resulta de seres humanos reais; entendimento recíproco é o que importa. ... Vemos em toda parte surgirem teorias encharcadas de abstração, nas quais são apresentadas às pessoas todas as idéias e ideais possíveis. Mas não é disso que se trata; trata-se apenas de penetrar com compreensão no concreto, na vida real.

Nosso comentário: a Filosofia e a Pedagogia do Convívio, a Trópis como laboratório de observação e desenvolvimento do convívio humano no cotidiano real – nada disso foi criado intencionalmente a partir da leitura deste ou de outros textos, mas apenas tentando responder a situações reais que tínhamos pela frente. Porém a correspondência com os objetivos e atitudes expressos no texto é exata.

(2) ... a resistência ao autoritarismo no campo espiritual e intelectual (da religião e filosofia às ciências, medicina, direito etc.), com o cultivo da liberdade de pensamento, da capacidade de julgamento autônomo.

Como evitar, porém, que isso seja fique no nível do ‘achismo’ ou ‘opinionismo’ leviano e arbitrário, nestes tempos de especialização e de excesso de informação? A resposta de Steiner a isso coincide com sua resposta ao ponto 3:

(3) o julgamento autônomo legítimo só se torna viável a partir do contato com o nível espiritual – o que propicia a intuição dos princípios pertinentes a cada caso. É preciso portanto reconhecer esse nível e ocupar-se dele mentalmente (pois isso já é estar construindo contato).

Até aqui fala Rudolf Steiner, deixando-nos a inevitável pergunta: como conciliar essa necessidade de contato com o espiritual com a própria liberdade que ele deve garantir? – pois evidentemente essa liberdade não é verdadeira se não contiver inclusive a liberdade de descrer do espiritual!

Talvez ajude relembrar que uma das formas de entender ‘o espiritual’  no discurso de Steiner (porém, com honestidade, não a única) é a do idealismo alemão, e mais particularmente de Goethe: podemos entendê-lo como o campo dos grandes princípios que subjazem à multiplicidade das manifestações (= fenômenos) –  princípios cuja luz evidencia sentidos e estruturações nessa multiplicidade, de modo análogo a como a luz polarizada sobre os minerais revela sua estruturas não-evidentes.

Porém, seja como for definido ‘o espiritual’, importa que o contato com ele permanece sujeito às condições da resposta anterior (n.º 2): não se encontra sob a autoridade de sacerdotes ou mestres, e sim no campo das vivências e da liberdade individuais.

As respostas 2 e 3 formam, portanto, uma ‘dobradinha’ intrincada, um refinado sistema de feedback de ajuste delicado e realização prática trabalhosa como um castelo de cartas.

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2.3 - A ABORDAGEM DA TRÓPIS A ISSO

Ninguém na Trópis é pressionado a acreditar no espiritual – nem a desacreditar! – porém, diferente das escolas leigas atuais, os discursos que utilizam essa categoria não são omitidos, escondidos ou ridicularizados; e diferente das escolas religiosas, não se privilegia o discurso de uma das tradições como expressão superior da verdade, com a qual os outros discursos um dia ainda terão que concordar.

Apresenta-se uma pluralidade de modos de olhar, procedentes das mais diversas tradições culturais, religiosas, científicas etc., admitindo-se que está bem além das possibilidades atuais encontrar um encaixe final e todo-coerente das peças resultantes – ensinando porém a não jogar nenhuma peça fora, mas a guardá-las numa ‘caixa de figurinhas’ pessoal, à qual se pode recorrer ao longo da vida.

Note-se que, sendo verdadeira a concepção goetheana-steineriana de espírito, este terminará por evidenciar-se por si mesmo do mero convívio de tais ‘figurinhas vivas’ (isso se auto-evidencia da observação do processo, porém também foi implícita ou explicitamente enunciado por Steiner muitas vezes, como p.ex. na conhecida palestra do GA 108, de 1909, A Educação Prática do Pensamento).

Porém também partindo do campo científico oferece-se hoje uma forma de lidar com tais dados – aceitável aos padrões acadêmicos sem ferir a dignidade do discurso espiritualista: o campo dos Estudos do Imaginário, definido inicialmente na França, o qual vem sido explorado por antropólogos, sociólogos, psicólogos, pedagogos etc. Reconhecendo a absoluta realidade, e influência na vida, do campo do que as pessoas pensam sobre tudo – especialmente das imagens duradouras, cultivadas coletivamente – esta abordagem permite seu registro e estudo com absoluta seriedade, sem nenhuma necessidade de entrar na questão de se os fatos e seres encontrados nesse campo são apenas criação humana ou têm uma ou outra medida de existência autônoma. Garante-se assim o espaço para o conhecimento das mais diversas idéias, sem nenhum gesto de caráter dogmático, deixando ao indivíduo a definição de sua relação pessoal com essas idéias. (Poderia ser dito mais sobre a riqueza de possibilidades desta abordagem, porém devemos deixá-lo para outra ocasião).

Os resultados têm sido notáveis sobretudo em termos da vivacidade da relação com o conhecimento e com o mundo social-político-intelectual. Em congressos, encontros, seminários, convenções, os jovens que participam de atividades da Trópis têm invariavelmente se destacado, trazendo como que um sopro renovador que é percebido por muitos, embora não saibam como defini-lo. Fenômeno semelhante acontece na vida cotidiana,  onde esses jovens com freqüência se tornam referência para coetâneos que se sentem em busca ou à espera de algo, e acabam encontrando neles por primeira vez a indicação da possibilidade de desenvolver-se consistentemente por um caminho de autonomia, em lugar de aderir a um ou outro sistema padronizador (religioso, ideológico etc).

O envolvimento nas atividades em questão se dá via-de-regra na segunda metade do terceiro setênio (às vezes com um envolvimento mais lúdico, menos intelectual, um pouco antes disso). Isso não é de modo nenhum prematuro: é o momento exato, pelo menos nas condições atuais e locais. (Para maiores discussões deste e de outros pontos será necessário criar ocasião oportuna).

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2.4 - A SEXTA ÉPOCA E A RADICALIZAÇÃO DA COMPAIXÃO

Uma das afirmações mais impressionantes de Rudolf Steiner sobre a futura Sexta Época Pós-Atlântica é a de que a própria constituição física dos seres humanos será tal, que a presença de dor, fome ou outro tipo de mal-estar em uma única pessoa será sentida também pelas outras, não apenas moral mas até fisicamente. Como resultado será absolutamente impossível à humanidade tolerar que qualquer sofrimento evitável esteja atingindo qualquer um de seus membros.

Como é a dinâmica normal da preparação de cada época no ‘útero da anterior’ (expressão de Steiner), as pessoas envolvidas nesse processo começam a prefigurar em si mesmas os passos que precisam ser dados. Se não chegamos ainda ao nível da dor física, o sofrimento anímico e moral frente ao sofrimento alheio já se tornou hoje agudo e inevitável para muitas pessoas; podemos dizer que a compaixão deixou de ser nelas uma virtude opcional e passou a ser uma faculdade inerente como a visão ou a audição.

Para essas pessoas – que não são poucas – não existe alternativa saudável senão engajar-se no que podemos chamar os processos de preparação da Sexta Época. Não fazê-lo significa conviver constantemente com um nível de sofrimento dificilmente suportável, ou então recorrer constantemente a ‘anestésicos’, ou ainda ‘furar os próprios olhos’, destruir ou negar a própria percepção, o que equivale a uma espécie de suicídio moral.

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2.5 - O HORROR DENEGADO POR TRÁS DO BRILHO
E O BRASIL COMO MODELO NEGATIVO

Porém assumir o caminho tampouco é fácil: implica em como que assistir a um desnudamento da verdadeira natureza da ‘glória’ da nossa época, o qual pode ser tão perturbador que costuma provocar reações de extrema indignação e recusa. Percebe-se aí que essas visões estão sob um processo coletivo de denegação ou recalque, como os que Freud identificou frente a fatos perturbadores na psique individual.

Duas imagens caracterizam bem esse desnudamento. Todo o estilo de vida que nos é apresentado hoje como desejável – com todos os encantadores e caros objetos de desejo que variam de pessoa para pessoa, porém estão sempre presentes –, pode ser representado na forma de uma linda mulher – a mais encantadora e desejável das mulheres; e então de repente algo é puxado, e descobrimos que se tratava apenas de uma capa, como de uma boneca, revestindo uma estrutura precária e macabra feita de peças metálicas e ossos.

A segunda imagem é a de um tecido deslumbrante, como um brocado, um manto real cheio de pedrarias. De repente é virado pelo avesso, e vê-se que as pedrarias estão presas e costuradas com pedaços de gente, com órgãos humanos.

Nessas imagens se evidencia o grau insuportável de indignidade e de sofrimento humano que estão embutidos na manutenção do estilo de vida ‘desenvolvido’ da nossa época. É importante notar que isso não é ‘poesia’, porém uma tradução imagética de fatos absolutamente concretos.

Faz parte disso, p.ex., o prospecto de uma sociedade ‘20 por 80’ (20% da humanidade participando da uma vida econômica próspera e 80% simplesmente abandonados), prefigurada para o século XXI em 1995, em uma reunião documentada das mais significativas lideranças mundiais.

E, em todo o mundo, estudiosos do assunto apontam uma sociedade como o modelo mais avançado dessa ‘evolução’ perversa: a sociedade brasileira!

O que significa, então, viver no meio dela? Mais:

-  O que significa ter sido colocado aqui pelo destino – se levamos a sério os grandes conceitos da Ciência Espiritual de Rudolf Steiner – em termos de tarefas de vida?

-  O que significa se essa característica – a da brutal iniqüidade estrutural da sociedade – é o mais gritante de todos os fatos em torno de nós?

-  O que significa para quem pretende cultivar aqui uma Ciência Espiritual, se é impossível um efetivo despertar espiritual enquanto nos concedemos o luxo da denegação dos fatos incômodos (o escolher-não-ver que leva ao efetivamente-deixar-de-ver)?

-  Quais as conseqüências de assumir efetivamente pelo menos um pouco de abertura dos olhos espirituais – do que todos somos capazes neste início de século XXI, se de fato quisermos – se com isso não poderemos mais escapar de estar conscientes da enorme deformidade em torno de nós?

-  E o que significa dispor-se a – ou, mais exatamente, aceitar-se sujeito a e sujeito de  tarefas histórico-espirituais no meio dessa sociedade?

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2.6 - O ENFRENTAMENTO SOCIAL DA OPRESSÃO ARIMÂNICA

Voltaremos à pergunta depois de observar que, em linguagem antroposófica, estamos aqui falando da opressão do ser humano pelas forças arimânicas, a qual se faz antes de mais nada pela imposição de necessidades para viver no mundo da matéria (o ‘transforma estas pedras em pão’ – conforme narrado no ciclo de palestras O Quinto Evangelho – GA 148, de 1913).

Em nossa época, porém, as necessidades básicas de todos já poderiam estar plenamente satisfeitas se as conquistas da humanidade fossem partilhadas fraternalmente! A opressão se perpetua então pela oferta de bens supérfluos porém altamente desejáveis, ou da criação de situações que gerem artificialmente novas necessidades reais (como p.ex. o telefone passou a ser para o estilo de vida moderno) – de modo que, lutando pela satisfação desses desejos, os seres humanos sucumbam ao egoísmo, adiem mais uma vez a fraternidade, e assim possam seguir sendo ‘vampirizados’ pelos poderes arimânicos.

Falando da única efetiva libertação das opressões espirituais, que consiste não no afastamento dos seres adversos mas em sua redenção ou transformação (a qual só pode ser operada com a participação do ser humano!), diz um dos maiores conhecedores atuais da obra de R.Steiner:

Desde o século XV, uma segunda tarefa se acrescentou pouco a pouco à primeira, a de ‘redimir’ também os seres arimânicos. Mas enquanto que em nossos dias cada indivíduo – mesmo se apenas em pequena medida – é capaz de participar da ‘libertação’ de Lúcifer por receber o impulso crístico em sua alma, o trabalho no sentido da libertação de Áriman, mesmo em pequeno grau, só é possível para uma comunidade social de seres humanos. Alcançar isto como ser individual, em nossos tempos, só é possível para os iniciados mais elevados. (Prokofieff, S.O. O significado oculto do perdão, cap.V.5. S.Paulo, Ed.Antroposófica, 2003).

Naturalmente isto é assunto para tratados inteiros... Aqui apenas apontaremos para uma expressão-chave: compartilhamento de recursos. Muitas coisas necessárias ou desejadas se tornam motivo de desespero, sofrimento e fratricídio se cada um as busca individualmente, porém podem perfeitamente ser usufruídas sem maiores prejuízos para a humanidade e para a Terra se forem usadas compartilhadamente de modo inteligente. Só que isso exige... aprender a conviver, num grau muito maior do que já foi necessário até hoje.

Curiosamente, não é só em formas visivelmente comunitárias que se dá o compartilhamento de recursos. Esse é o princípio por trás de vários mecanismos do sistema capitalista, como os seguros e o próprio capital –  um mesmo dinheiro que alimenta simultaneamente diversos empreendimentos. O problema é que atualmente não há consciência de estar-se participando de um processo de compartilhamento; isso é feito de modo anônimo, sem rosto, mediado pelos instituidores e/ou gestores do sistema, os quais além disso se apropriam de uma parte substanciosa (para dizer o mínimo) dos benefícios gerados – o que pode ser visto como uma versão avançada da atitude de Ananias e Safira na comunidade dos primeiros cristãos (Atos 5).

Uma forma mais radical desse procedimento é o desenvolvido há muitos séculos nos mosteiros: embora façam voto de ‘pobreza’ (isto é, de não possuir nada individualmente), não poucos monges chegaram a viver no luxo e privilégio... apenas no desfrute dos bens que a ordem possuía coletivamente.

Neste início de século XXI a experiência de viver permanentemente numa situação de compartilhamento de recursos não é para todos – porém pelo menos como um período de aprendizado e desenvolvimento pessoal pode sem sombra de dúvida ser recomendada a todos, sem exceção.

E isso ainda mais quando existe a necessidade, referida acima, de entender de fato a sociedade em que se vive, uma sociedade em que uma quantidade imensa de pessoas – de fato a maioria – não tem nenhuma opção senão a de compartilhar (embora já não compartilhe com o mesmo espírito de antes, já que isso é visto como deficiência no quando dos valores dominantes da época!).

Estamos falando aqui da forma de vida comunitária cultivada dentro da Trópis – período de preparação para uns, possível destino permanente para outros, útil a todos os que se dispõem a experimentar.

Diversas instituições antroposóficas de ensino adulto aproximam-se de uma vida neo-monástica, como o Emerson College, na Inglaterra, onde tivemos o privilégio de estudar e cujo fundador, Francis Edmunds, era um brilhante defensor de novos tipos de vida comunitária. Onde está a novidade?

Por trás de toda a práxis comunitária do cotidiano, um Emerson College só existe porque é uma escola paga, e isso só é possível porque serve a uma população suficientemente ‘irrigada de sangue econômico’ para poder optar por isso; uma população em que os que não podem pagar, total ou parcialmente, não são tão numerosos que impeçam um tal sistema de funcionar.

A novidade é tentar enfrentar a necessidade de realizar coisa análoga em meio a um contingente  populacional definido justamente pelo fato de não poder pagar por esse tipo de coisa.

Mas por  que escolher essa característica incômoda para defini-lo? – Porque no Brasil isso significa não menos que 85% da população total, ou seja: pelo menos 145 milhões de seres humanos.

(Não se trata aqui de um estudo estatístico sistemático. Apenas nos perguntamos ‘quê parcela da população encontra pelo menos algum nível de impedimento econômico no acesso não a confortos supérfluos, mas às coisas indispensáveis para o desenvolvimento pleno de seus potenciais humanos. Não se pode ignorar aí o papel de moradia salubre, alimentação adequada e assistência médica e odontológica satisfatórias, porém nossa ênfase está no que vai diretamente além do físico: alguma assistência adequada de natureza psicológica, e acesso a cultura e a uma educação digna desse nome. A partir de alguns valores de mercado e de alguns dados estatísticos básicos não é difícil inferir que esses impedimentos atingem a no mínimo 85% da população).

Esse critério implica em deixar de projetar as ações de modo a que só estejam ao alcance dos outros 15% – o público ‘decente’ que paga pelo quer, compra nossos livros etc. –, apesar de que sem dúvida essa fosse a forma mais fácil de garantir a viabilidade econômica dos nossos projetos!

Com relação às pessoas que percorrem os difíceis anos de transição entre infância e idade adulta – os adolescentes e jovens de 13 a 21 anos que (por razões demonstradas em outros trabalhos) são o nosso foco principal – isso significa que, embora sem fechar portas a integrantes de um grupo de 5 milhões, nossa prioridade é servir a um grupo de 28 milhões. Isso não por alguma discriminação sentimental, mas simplesmente porque os tais 5 milhões já têm inúmeras possibilidades e oportunidades, se apenas quiserem procurar.

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2.7 - DUAS QUESTÕES ABERTAS

Isso suscita necessariamente duas perguntas:

(1) Quais as formas mais adequadas de atuar dentro dessa realidade – e isso não como mero paliativo local, mas tendo em vista os grandes objetivos humanos e universais?

(2) Se estamos definindo nosso público pela impossibilidade de pagar pelo que precisa, como financiar essa atuação?

A primeira é uma questão que escolhemos voluntariamente; a segunda, como a própria realidade que a gera, é uma questão que desejaríamos que simplesmente não existisse, que jamais tivéssemos que enfrentar!...

Ela é especialmente difícil porque, pelo mesmo mecanismo de denegação, a sociedade economicamente capaz a trata como se esse desafio fosse uma questão ‘de quem gosta de trabalho social’, e não, como de fato é, da sociedade como um todo.

Olhemos um pouco para a primeira pergunta: a existência da Trópis é a nossa tentativa de elaborar, na própria vida cotidiana, a resposta a essa questão. E tudo, na nossa experiência,  corrobora a cada momento as advertências de Rudolf Steiner na palestra sobre a ‘penúria de alma’: não adianta partir de programas teóricos: isso só pode ser desenvolvido a partir do viver conjunto de indivíduos reais.

Isso, naturalmente, se tentarmos fazê-lo com ‘olhos’ abertos no nosso pensar: se aprofundamos nossa consciência precisamente no momento e local presentes, o mundo espiritual responde sugerindo formas de atuar especificamente nessa realidade.

Isso não é de modo nenhum equivalente a adaptar formas geradas pelo espírito em realidades diversas.  Isso sempre terá algum valor, é claro – mas estará longe de alcançar as respostas de fato necessárias – pois na verdade é tão ‘programa teórico abstrato’ quanto um modelo qualquer elaborado sem participação do conhecimento espiritual.

O que estamos dizendo não significa, porém, que o trabalho realizado só se aproveite para aquelas poucas pessoas que pode atingir diretamente, e que não possa de certa forma servir de modelo: serve, sim, de modelo (e gerar e passar adiante um tal modelo é um dos objetivos primordiais da Trópis!), desde que se entenda realmente para que serve um modelo: serve de inspiração, exemplo, sugestão, ponto de partida – e talvez ainda de exercício, preparação de forças – para encetar uma nova empreitada absolutamente original.

Quanto à segunda pergunta (como financiar um trabalho assim?), só iremos dizer agora: isso é um assunto para a Trimembração Social.  A Trimembração Social tem que, necessariamente, conter em si a possibilidade de responder a essa pergunta na prática – ou então não seria realmente uma idéia universal, não seria efetivamente a Trimembração para a qual Rudolf Steiner quis apontar!

Há, de fato, inúmeras interrogações acerca da efetiva realização da Trimembração, sobretudo devido às imensas alterações na sociedade no final do século XX, muitas das quais ainda nem percebemos em toda sua extensão. Porém isso deve ser tema de um outro artigo, em outro momento, que será sobretudo um convite à manifestação de quem pode desenvolver o assunto melhor do que nós.

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2.8 - DESTINO, LIBERDADE E NECESSIDADE

Para terminar: começamos falando de liberdade... e um pouco adiante falamos de ‘estar sujeito a tarefas histórico-espirituais’: mas onde fica a liberdade nessa imagem de sujeição a uma tarefa?

Essa é uma coisa engraçada: quem procura bem, acaba encontrando que ‘seu destino’ e ‘seu Eu’ não são coisas diferentes. À medida que vamos despindo as capas e capas de falsas vontades, desejos que vamos pouco a pouco reconhecendo como implantados de fora, para procurar a vontade mais íntima que temos – mais que isso: a vontade mais íntima que somos, para aí segui-la livremente... terminamos por descobrir que... (1) a não ser em casos excepcionais e terríveis, isso é sempre um impulso útil ao todo; (2) é geralmente um caminho cheio de obstáculos, e no entanto não existe nenhum outro que valha a pena desejar.

Liberdade então equivale a cumprir o próprio destino – e, sendo de fato o destino, é sempre um passo que contribui para a evolução universal.

Por isso escrevemos ‘sujeito a e sujeito de’ – pois chegamos aqui ao nível do que Nicolau de Cusa (ou Nikolaus von Cues) chamava a coincidentia oppositorum: aceitar-se sujeito a é assumir-se sujeito de uma tarefa; senhor porque e na medida em que servo. Livre porque realizando o mais desejado dos atos: o mais necessário para o universo entre os que estão ao alcance desse sujeito, nesse momento, nesse lugar.

Mas como outra pessoa poderia nos ensinar qual é o nosso próprio roteiro, o que se descortina naturalmente quando olhamos a partir do ponto que jaz lá no fundo do fundo de nós?

Talvez por essa razão, de entre tudo o que já ouviram na Trópis,  nossos jovens tenham escolhido para pintar em uma espécie de portal que há aqui a antiga frase que Píndaro dizia ser o objetivo de toda educação:
TORNA-TE O QUE TU ÉS.

 

Registre-se como parte deste trabalho a
homenagem e gratidão a Vincent van Gogh.

 


para o artigo seguinte desta série:
Artigo 3 (metodológico):
RELACIONANDO-SE COM A ANTROPOSOFIA  COMO DISCURSO CIENTÍFICO

 

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