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Ralf
Rickli - fundador
da Trópis. Tradutor de
Rudolf Steiner,
ex-docente de Fundamentos Antroposóficos no IBD / Botucatu.
2.1 - DO QUE (NÃO) TRATAREMOS
2.2 - UMA ÉPOCA DE PENÚRIA DE ALMA E SUA TRANSFORMAÇÃO
2.3 - A ABORDAGEM DA TRÓPIS A ISSO
2.4 - A SEXTA ÉPOCA E A RADICALIZAÇÃO DA COMPAIXÃO
2.5 - O HORROR DENEGADO POR TRÁS DO BRILHO E O BRASIL COMO MODELO NEGATIVO
2.6 - O ENFRENTAMENTO SOCIAL DA OPRESSÃO ARIMÂNICA
2.7 - DUAS QUESTÕES ABERTAS
2.8 - DESTINO, LIBERDADE E NECESSIDADE
Podemos começar afirmando que o
trabalho da Trópis só pode ser compreendido em todo seu alcance por quem se
dispuser a levar em conta níveis sutis da realidade – quer coloquemos esses
níveis sob o rótulo ‘Imaginário’, sob o rótulo ‘Espiritual’ ou ainda outros.
Como a Antroposofia dispõe de um
rico instrumental e de um vasto referencial de estudos nesses campos, é sem
dúvida útil usá-los para olhar a Trópis – bem como, naturalmente, experimentar
usar critérios da Trópis (os da Filosofia do Convívio) para olhar a
Antroposofia. O fato de que um dos espelhos seja gigantesco e o outro de bolso
absolutamente não prejudica esse ato de fairplay.
Um inventário inicial de quê
idéias antroposóficas se mostram mais presentes nas visões de trabalho e na
prática cotidiana da Trópis pode mostrar o seguinte:
• a arte como caminho privilegiado de educação
(embora não necessariamente usemos as técnicas e estilos usuais nos meios
antroposóficos – ponto cuja discussão não cabe no momento);
•
combinação de arte e conhecimento como meio de transcendência (de acordo com
Goethe: ‘quem tem ciência e tem arte tem religião’);
• ensino em épocas temáticas;
• respeito absoluto à individualidade
humana;
• prevalência da qualidade de encontro
humano sobre todo e qualquer outro critério no trabalho da instituição;
• convívio como arte (Arte Social);
• a idéia geral da Trimembração Social – como
instrumento de análise, planejamento, decisão e administração;
• a iniciativa inteira como resultado da busca de
uma compreensão ao mesmo tempo racional e transcendente da realidade – como a
proposta por Rudolf Steiner.
No momento não é viável um
estudo amplo de todos esses pontos, que apenas deixamos registrados, porém nos
parece fundamental colocar um pouco mais à disposição sobre a natureza profunda
do nosso trabalho. Para isso nossas atividades de tradução e revisão sugeriram
diversas pistas interessantes nos últimos anos – algumas das quais queremos
desenvolver um pouco a seguir.
Não será um texto de introdução
à Antroposofia – por isso empregaremos sem maiores explicações diversas
expressões que podem soar bastante estranhas aos leitores não familiarizados.
Demos porém um tratamento diferente a algumas idéias de especial importância
para nossa argumentação, tentando ‘traduzi-las’ em termos filosóficos mais característicos deste início de século
XXI – de modo que podem soar estranhos também para quem é familiarizado
com a Antroposofia!... Afinal, uma certa medida de estranheza estimula e renova
a compreensão. Esperamos ter acertado a medida!
para
o início do artigo
Entre inúmeros textos de Rudolf
Steiner com o mesmo sentido, queremos destacar a palestra IV do GA (volume das
Obras Completas) 168,
de 1916 – no catálogo da Editora Antroposófica com o nome Carências da alma
em nossa época. (O
volume todo deve ser publicado em breve pela Sociedade Antroposófica em forma
de apostila, com tradução nossa. Demos aí preferência à expressão ‘penúria de
alma dos nossos tempos’) – e
ainda a palestra do GA 159, de 1915, publicada em inglês como Preparing for
the Sixth Epoch.
De todos esses textos ressalta a
afirmação de que sempre cabe às pessoas que se envolvem com efetivo
conhecimento espiritual trabalharem na preparação da época cultural seguinte.
Segundo Steiner, nossa Quinta
Época Pós-Atlante nos ameaça permanentemente com (1) o estranhamento entre os
seres humanos, a incapacidade de se compreenderem, a desumanização das relações
sociais; (2) a concentração de autoridade nos especialistas dos diversos
campos, tentando reduzir a autonomia dos indivíduos; (3) a negação do
espírito no conhecimento, o que, para Steiner, fará a ciência atual ser vista no
futuro como superstição.
Observação nossa: conhecendo um
pouco os usos da palavra Geist na filosofia alemã, sugerimos não relacionar
‘espírito’ primordialmente com ‘religiosidade’, e sim com a presença na
Realidade de intenção, sentimento, consciência e sentido. A negação disso não
está no uso do rótulo ‘materialismo’ nem na rejeição da palavra
‘espírito’, e sim, primordialmente, na busca de fazer do acaso o senhor
último das origens.
Retomando: a humanidade só
estará preparada para os passos evolutivos que a esperam na Sexta Época (daqui
a muitos séculos) se essas tendências da Quinta Época forem respondidas desde
agora com...
(1) ... a conquista de novas
formas de entendimento entre os seres humanos – generalizadas: Steiner
diz ‘entendimento social’. Isso não pode ser alcançado partido-se de programas
ou ideais abstratos, mas somente do aprendizado, por cada pessoa, de uma
antropologia e psicologia práticas, um aprendizado de como são os diferentes
seres humanos. Steiner acentua várias vezes o caráter prático, não abstrato
desse aprendizado:
Quando
surgem sociedades, elas deveriam surgir (...) de tal modo que os seres humanos
que se encontram nessa sociedade sejam o seu motivo principal, e que o que
possa resultar resulte dos intercâmbios recíprocos desses seres humanos
objetivos. ... Toda conversa sobre programas e estatutos é apenas uma
concessão ao mundo; trata-se mesmo é do viver conjunto de indivíduos, que
resulta de seres humanos reais; entendimento recíproco é o que importa. ...
Vemos em toda parte surgirem teorias encharcadas de abstração, nas quais são
apresentadas às pessoas todas as idéias e ideais possíveis. Mas não é disso que
se trata; trata-se apenas de penetrar com compreensão no concreto, na vida
real.
Nosso comentário: a Filosofia e
a Pedagogia do Convívio, a Trópis como laboratório de observação e desenvolvimento
do convívio humano no cotidiano real – nada disso foi criado intencionalmente a
partir da leitura deste ou de outros textos, mas apenas tentando responder a
situações reais que tínhamos pela frente. Porém a correspondência com os
objetivos e atitudes expressos no texto é exata.
(2) ... a resistência ao
autoritarismo no campo espiritual e intelectual (da religião e filosofia às
ciências, medicina, direito etc.), com o cultivo da liberdade de pensamento, da
capacidade de julgamento autônomo.
Como evitar, porém, que isso
seja fique no nível do ‘achismo’ ou ‘opinionismo’ leviano e arbitrário, nestes
tempos de especialização e de excesso de informação? A resposta de Steiner a
isso coincide com sua resposta ao ponto 3:
(3) o julgamento autônomo
legítimo só se torna viável a partir do contato com o nível espiritual – o que
propicia a intuição dos princípios pertinentes a cada caso. É preciso
portanto reconhecer esse nível e ocupar-se dele mentalmente (pois isso já é estar
construindo contato).
Até aqui fala Rudolf Steiner,
deixando-nos a inevitável pergunta: como conciliar essa necessidade de
contato com o espiritual com a própria liberdade que ele deve garantir? – pois
evidentemente essa liberdade não é verdadeira se não contiver inclusive a
liberdade de descrer do espiritual!
Talvez ajude relembrar que uma
das formas de entender ‘o espiritual’ no discurso de Steiner (porém, com honestidade, não a única) é a do
idealismo alemão, e mais particularmente de Goethe: podemos entendê-lo como o
campo dos grandes princípios que subjazem à multiplicidade das manifestações
(= fenômenos) – princípios cuja
luz evidencia sentidos e estruturações nessa multiplicidade, de modo análogo a
como a luz polarizada sobre os minerais revela sua estruturas não-evidentes.
Porém, seja como for definido ‘o
espiritual’, importa que o contato com ele permanece sujeito às condições da
resposta anterior (n.º 2): não se encontra sob a autoridade de sacerdotes ou
mestres, e sim no campo das vivências e da liberdade individuais.
As respostas 2 e 3 formam,
portanto, uma ‘dobradinha’ intrincada, um refinado sistema de feedback
de ajuste delicado e realização prática trabalhosa como um castelo de cartas.
para
o início do artigo
Ninguém na Trópis é pressionado a acreditar no
espiritual – nem a desacreditar! – porém, diferente das escolas leigas atuais,
os discursos que utilizam essa categoria não são omitidos, escondidos ou
ridicularizados; e diferente das escolas religiosas, não se privilegia o
discurso de uma das tradições como expressão superior da verdade, com a qual os
outros discursos um dia ainda terão que concordar.
Apresenta-se uma pluralidade de
modos de olhar, procedentes das mais diversas tradições culturais, religiosas,
científicas etc., admitindo-se que está bem além das possibilidades atuais
encontrar um encaixe final e todo-coerente das peças resultantes –
ensinando porém a não jogar nenhuma peça fora, mas a guardá-las numa ‘caixa de
figurinhas’ pessoal, à qual se pode recorrer ao longo da vida.
Note-se que, sendo verdadeira a
concepção goetheana-steineriana de espírito, este terminará por evidenciar-se por
si mesmo do mero convívio de tais ‘figurinhas vivas’ (isso se
auto-evidencia da observação do processo, porém também foi implícita ou
explicitamente enunciado por Steiner muitas vezes, como p.ex. na conhecida
palestra do GA 108, de 1909, A Educação Prática do Pensamento).
Porém também partindo do campo
científico oferece-se hoje uma forma de lidar com tais dados – aceitável aos
padrões acadêmicos sem ferir a dignidade do discurso espiritualista: o campo
dos Estudos do Imaginário, definido inicialmente na França, o qual vem sido
explorado por antropólogos, sociólogos, psicólogos, pedagogos etc. Reconhecendo
a absoluta realidade, e influência na vida, do campo do que as pessoas pensam
sobre tudo – especialmente das imagens duradouras, cultivadas coletivamente –
esta abordagem permite seu registro e estudo com absoluta seriedade, sem
nenhuma necessidade de entrar na questão de se os fatos e seres encontrados
nesse campo são apenas criação humana ou têm uma ou outra medida de existência
autônoma. Garante-se assim o espaço para o conhecimento das mais diversas
idéias, sem nenhum gesto de caráter dogmático, deixando ao indivíduo a
definição de sua relação pessoal com essas idéias. (Poderia ser dito mais sobre
a riqueza de possibilidades desta abordagem, porém devemos deixá-lo para outra
ocasião).
Os resultados têm
sido notáveis sobretudo em termos da vivacidade da relação com o conhecimento e
com o mundo social-político-intelectual. Em congressos, encontros, seminários,
convenções, os jovens que participam de atividades da Trópis têm
invariavelmente se destacado, trazendo como que um sopro renovador que é percebido
por muitos, embora não saibam como defini-lo. Fenômeno semelhante acontece na
vida cotidiana, onde esses jovens com
freqüência se tornam referência para coetâneos que se sentem em busca ou à
espera de algo, e acabam encontrando neles por primeira vez a indicação
da possibilidade de desenvolver-se consistentemente por um caminho de
autonomia, em lugar de aderir a um ou outro sistema padronizador (religioso,
ideológico etc).
O envolvimento nas atividades em
questão se dá via-de-regra na segunda metade do terceiro setênio (às vezes com
um envolvimento mais lúdico, menos intelectual, um pouco antes disso). Isso não
é de modo nenhum prematuro: é o momento exato, pelo menos nas condições atuais
e locais. (Para
maiores discussões deste e de outros pontos será necessário criar ocasião
oportuna).
para
o início do artigo
Uma das afirmações mais
impressionantes de Rudolf Steiner sobre a futura Sexta Época Pós-Atlântica é a
de que a própria constituição física dos seres humanos será tal, que a presença
de dor, fome ou outro tipo de mal-estar em uma única pessoa será sentida também
pelas outras, não apenas moral mas até fisicamente. Como resultado será
absolutamente impossível à humanidade tolerar que qualquer sofrimento evitável
esteja atingindo qualquer um de seus membros.
Como é a dinâmica normal da
preparação de cada época no ‘útero da anterior’ (expressão de Steiner), as
pessoas envolvidas nesse processo começam a prefigurar em si mesmas os passos
que precisam ser dados. Se não chegamos ainda ao nível da dor física, o
sofrimento anímico e moral frente ao sofrimento alheio já se tornou hoje agudo e
inevitável para muitas pessoas; podemos dizer que a compaixão deixou de ser
nelas uma virtude opcional e passou a ser uma faculdade inerente como a visão
ou a audição.
Para essas pessoas – que não são
poucas – não existe alternativa saudável senão engajar-se no que podemos chamar
os processos de preparação da Sexta Época. Não fazê-lo significa conviver
constantemente com um nível de sofrimento dificilmente suportável, ou então
recorrer constantemente a ‘anestésicos’, ou ainda ‘furar os próprios olhos’,
destruir ou negar a própria percepção, o que equivale a uma espécie de suicídio
moral.
para
o início do artigo
Porém assumir o caminho tampouco
é fácil: implica em como que assistir a um desnudamento da verdadeira natureza
da ‘glória’ da nossa época, o qual pode ser tão perturbador que costuma
provocar reações de extrema indignação e recusa. Percebe-se aí que essas visões
estão sob um processo coletivo de denegação ou recalque, como os que Freud
identificou frente a fatos perturbadores na psique individual.
Duas imagens caracterizam bem
esse desnudamento. Todo o estilo de vida que nos é apresentado hoje como
desejável – com todos os encantadores e caros objetos de desejo que
variam de pessoa para pessoa, porém estão sempre presentes –, pode ser
representado na forma de uma linda mulher – a mais encantadora e desejável das
mulheres; e então de repente algo é puxado, e descobrimos que se tratava apenas
de uma capa, como de uma boneca, revestindo uma estrutura precária e macabra
feita de peças metálicas e ossos.
A segunda imagem é a de um
tecido deslumbrante, como um brocado, um manto real cheio de pedrarias. De
repente é virado pelo avesso, e vê-se que as pedrarias estão presas e
costuradas com pedaços de gente, com órgãos humanos.
Nessas imagens se evidencia o
grau insuportável de indignidade e de sofrimento humano que estão embutidos na
manutenção do estilo de vida ‘desenvolvido’ da nossa época. É importante notar
que isso não é ‘poesia’, porém uma tradução imagética de fatos absolutamente
concretos.
Faz parte disso, p.ex., o
prospecto de uma sociedade ‘20 por 80’ (20% da humanidade participando da uma
vida econômica próspera e 80% simplesmente abandonados), prefigurada para o
século XXI em 1995, em uma reunião documentada das mais significativas
lideranças mundiais.
E, em todo o mundo, estudiosos
do assunto apontam uma sociedade como o modelo mais avançado dessa
‘evolução’ perversa: a sociedade brasileira!
O que significa, então, viver no
meio dela? Mais:
- O que significa ter sido colocado aqui pelo destino – se levamos a
sério os grandes conceitos da Ciência Espiritual de Rudolf Steiner – em termos
de tarefas de vida?
- O que significa se essa característica – a da brutal iniqüidade
estrutural da sociedade – é o mais gritante de todos os fatos em torno de nós?
- O que significa para quem pretende cultivar aqui uma Ciência
Espiritual, se é impossível um efetivo despertar espiritual enquanto nos
concedemos o luxo da denegação dos fatos incômodos (o escolher-não-ver que leva
ao efetivamente-deixar-de-ver)?
- Quais as conseqüências de assumir efetivamente pelo menos um pouco
de abertura dos olhos espirituais – do que todos somos capazes neste
início de século XXI, se de fato quisermos – se com isso não poderemos mais
escapar de estar conscientes da enorme deformidade em torno de nós?
- E o que significa dispor-se a – ou, mais exatamente, aceitar-se
sujeito a e sujeito de tarefas histórico-espirituais no meio dessa sociedade?
para
o início do artigo
Voltaremos à pergunta depois de
observar que, em linguagem antroposófica, estamos aqui falando da opressão do
ser humano pelas forças arimânicas, a qual se faz antes de mais nada pela
imposição de necessidades para viver no mundo da matéria (o ‘transforma
estas pedras em pão’ – conforme narrado no ciclo de palestras O Quinto
Evangelho – GA 148, de 1913).
Em nossa época, porém, as necessidades
básicas de todos já poderiam estar plenamente satisfeitas se as
conquistas da humanidade fossem partilhadas fraternalmente! A opressão se
perpetua então pela oferta de bens supérfluos porém altamente desejáveis, ou da
criação de situações que gerem artificialmente novas necessidades reais (como
p.ex. o telefone passou a ser para o estilo de vida moderno) – de modo que,
lutando pela satisfação desses desejos, os seres humanos sucumbam ao egoísmo,
adiem mais uma vez a fraternidade, e assim possam seguir sendo ‘vampirizados’
pelos poderes arimânicos.
Falando da única efetiva
libertação das opressões espirituais, que consiste não no afastamento dos seres
adversos mas em sua redenção ou transformação (a qual só pode ser operada com a
participação do ser humano!), diz um dos maiores conhecedores atuais da obra de
R.Steiner:
Desde
o século XV, uma segunda tarefa se acrescentou pouco a pouco à primeira, a de
‘redimir’ também os seres arimânicos. Mas enquanto que em nossos dias cada
indivíduo – mesmo se apenas em pequena medida – é capaz de participar da
‘libertação’ de Lúcifer por receber o impulso crístico em sua alma, o trabalho
no sentido da libertação de Áriman, mesmo em pequeno grau, só é possível
para uma comunidade social de seres humanos. Alcançar isto como ser
individual, em nossos tempos, só é possível para os iniciados mais elevados. (Prokofieff, S.O. O significado
oculto do perdão, cap.V.5. S.Paulo, Ed.Antroposófica, 2003).
Naturalmente isto
é assunto para tratados inteiros... Aqui apenas apontaremos para uma
expressão-chave: compartilhamento de recursos. Muitas coisas necessárias
ou desejadas se tornam motivo de desespero, sofrimento e fratricídio se cada um
as busca individualmente, porém podem perfeitamente ser usufruídas sem maiores
prejuízos para a humanidade e para a Terra se forem usadas compartilhadamente
de modo inteligente. Só que isso exige... aprender a conviver, num grau
muito maior do que já foi necessário até hoje.
Curiosamente, não é só em formas
visivelmente comunitárias que se dá o compartilhamento de recursos. Esse é o
princípio por trás de vários mecanismos do sistema capitalista, como os seguros
e o próprio capital – um mesmo dinheiro
que alimenta simultaneamente diversos empreendimentos. O problema é que
atualmente não há consciência de estar-se participando de um processo de
compartilhamento; isso é feito de modo anônimo, sem rosto, mediado pelos
instituidores e/ou gestores do sistema, os quais além disso se apropriam de uma
parte substanciosa (para dizer o mínimo) dos benefícios gerados – o que pode
ser visto como uma versão avançada da atitude de Ananias e Safira na comunidade
dos primeiros cristãos (Atos 5).
Uma forma mais radical desse
procedimento é o desenvolvido há muitos séculos nos mosteiros: embora façam
voto de ‘pobreza’ (isto é, de não possuir nada individualmente), não poucos
monges chegaram a viver no luxo e privilégio... apenas no desfrute dos bens que
a ordem possuía coletivamente.
Neste início de
século XXI a experiência de viver permanentemente numa situação de
compartilhamento de recursos não é para todos – porém pelo menos como um
período de aprendizado e desenvolvimento pessoal pode sem sombra de dúvida
ser recomendada a todos, sem exceção.
E isso ainda mais quando existe
a necessidade, referida acima, de entender de fato a sociedade em que se vive,
uma sociedade em que uma quantidade imensa de pessoas – de fato a maioria – não
tem nenhuma opção senão a de compartilhar (embora já não compartilhe com o
mesmo espírito de antes, já que isso é visto como deficiência no quando
dos valores dominantes da época!).
Estamos
falando aqui da forma de vida comunitária cultivada dentro da Trópis – período
de preparação para uns, possível destino permanente para outros, útil a todos
os que se dispõem a experimentar.
Diversas
instituições antroposóficas de ensino adulto aproximam-se de uma vida
neo-monástica, como o Emerson College, na Inglaterra, onde tivemos o privilégio
de estudar e cujo fundador, Francis Edmunds, era um brilhante defensor de novos
tipos de vida comunitária. Onde está a novidade?
Por trás de toda a práxis
comunitária do cotidiano, um Emerson College só existe porque é uma escola
paga, e isso só é possível porque serve a uma população suficientemente
‘irrigada de sangue econômico’ para poder optar por isso; uma população em que
os que não podem pagar, total ou parcialmente, não são tão numerosos que
impeçam um tal sistema de funcionar.
A novidade é tentar enfrentar a
necessidade de realizar coisa análoga em meio a um contingente populacional definido justamente pelo
fato de não poder pagar por esse tipo de coisa.
Mas por que escolher essa característica
incômoda para defini-lo? – Porque no Brasil isso significa não menos que 85% da
população total, ou seja: pelo menos 145 milhões de seres humanos.
(Não
se trata aqui de um estudo estatístico sistemático. Apenas nos perguntamos
‘quê parcela da população encontra pelo menos algum nível de impedimento
econômico no acesso não a confortos supérfluos, mas às coisas indispensáveis
para o desenvolvimento pleno de seus potenciais humanos. Não se pode
ignorar aí o papel de moradia salubre, alimentação adequada e assistência
médica e odontológica satisfatórias, porém nossa ênfase está no que vai
diretamente além do físico: alguma assistência adequada de natureza psicológica,
e acesso a cultura e a uma educação digna desse nome. A partir de alguns
valores de mercado e de alguns dados estatísticos básicos não é difícil inferir
que esses impedimentos atingem a no mínimo 85% da população).
Esse critério implica em deixar
de projetar as ações de modo a que só estejam ao alcance dos outros 15% – o
público ‘decente’ que paga pelo quer, compra nossos livros etc. –, apesar de
que sem dúvida essa fosse a forma mais fácil de garantir a viabilidade
econômica dos nossos projetos!
Com relação às pessoas que
percorrem os difíceis anos de transição entre infância e idade adulta – os adolescentes
e jovens de 13 a 21 anos que (por razões demonstradas em outros trabalhos) são
o nosso foco principal – isso significa que, embora sem fechar portas a
integrantes de um grupo de 5 milhões, nossa prioridade é servir a um grupo de
28 milhões. Isso não por alguma discriminação sentimental, mas simplesmente
porque os tais 5 milhões já têm inúmeras possibilidades e oportunidades,
se apenas quiserem procurar.
para
o início do artigo
Isso suscita necessariamente
duas perguntas:
(1) Quais as formas mais
adequadas de atuar dentro dessa realidade – e isso não como mero paliativo
local, mas tendo em vista os grandes objetivos humanos e universais?
(2) Se estamos
definindo nosso público pela impossibilidade de pagar pelo que precisa, como
financiar essa atuação?
A primeira é uma questão que
escolhemos voluntariamente; a segunda, como a própria realidade que a gera, é
uma questão que desejaríamos que simplesmente não existisse, que jamais
tivéssemos que enfrentar!...
Ela é especialmente difícil
porque, pelo mesmo mecanismo de denegação, a sociedade economicamente capaz a
trata como se esse desafio fosse uma questão ‘de quem gosta de trabalho
social’, e não, como de fato é, da sociedade como um todo.
Olhemos um pouco
para a primeira pergunta: a existência da Trópis é a nossa tentativa de
elaborar, na própria vida cotidiana, a resposta a essa questão. E tudo,
na nossa experiência, corrobora
a cada momento as advertências de Rudolf Steiner na palestra sobre a ‘penúria
de alma’: não adianta partir de programas teóricos: isso só pode ser
desenvolvido a partir do viver conjunto de indivíduos reais.
Isso, naturalmente, se tentarmos
fazê-lo com ‘olhos’ abertos no nosso pensar: se aprofundamos nossa consciência precisamente
no momento e local presentes, o mundo espiritual responde sugerindo formas
de atuar especificamente nessa realidade.
Isso não é de modo nenhum equivalente
a adaptar formas geradas pelo espírito em realidades diversas. Isso sempre terá algum valor, é claro – mas
estará longe de alcançar as respostas de fato necessárias – pois na verdade é
tão ‘programa teórico abstrato’ quanto um modelo qualquer elaborado sem
participação do conhecimento espiritual.
O que estamos dizendo não
significa, porém, que o trabalho realizado só se aproveite para aquelas poucas
pessoas que pode atingir diretamente, e que não possa de certa forma servir de
modelo: serve, sim, de modelo (e gerar e passar adiante um tal modelo é um dos
objetivos primordiais da Trópis!), desde que se entenda realmente para que
serve um modelo: serve de inspiração, exemplo, sugestão, ponto de
partida – e talvez ainda de exercício, preparação de forças – para encetar uma
nova empreitada absolutamente original.
Quanto à segunda
pergunta (como financiar um trabalho assim?), só iremos dizer agora: isso é um
assunto para a Trimembração Social.
A Trimembração Social tem que, necessariamente, conter em si a
possibilidade de responder a essa pergunta na prática – ou então não seria
realmente uma idéia universal, não seria efetivamente a Trimembração para a
qual Rudolf Steiner quis apontar!
Há, de fato, inúmeras
interrogações acerca da efetiva realização da Trimembração, sobretudo devido às
imensas alterações na sociedade no final do século XX, muitas das quais
ainda nem percebemos em toda sua extensão. Porém isso deve ser tema de um outro
artigo, em outro momento, que será sobretudo um convite à manifestação
de quem pode desenvolver o assunto melhor do que nós.
para
o início do artigo
Para terminar: começamos falando
de liberdade... e um pouco adiante falamos de ‘estar sujeito a tarefas
histórico-espirituais’: mas onde fica a liberdade nessa imagem de
sujeição a uma tarefa?
Essa é uma coisa engraçada: quem
procura bem, acaba encontrando que ‘seu destino’ e ‘seu Eu’ não são coisas
diferentes. À medida que vamos despindo as capas e capas de falsas vontades,
desejos que vamos pouco a pouco reconhecendo como implantados de fora, para
procurar a vontade mais íntima que temos – mais que isso: a vontade mais íntima
que somos, para aí segui-la livremente... terminamos por descobrir
que... (1) a não ser em casos excepcionais e terríveis, isso é sempre um
impulso útil ao todo; (2) é geralmente um caminho cheio de obstáculos, e no
entanto não existe nenhum outro que valha a pena desejar.
Liberdade então equivale a
cumprir o próprio destino – e, sendo de fato o destino, é sempre um passo que
contribui para a evolução universal.
Por isso escrevemos ‘sujeito a e
sujeito de’ – pois chegamos aqui ao nível do que Nicolau de Cusa
(ou Nikolaus von Cues) chamava a coincidentia oppositorum: aceitar-se sujeito
a é assumir-se sujeito de uma tarefa; senhor porque e na medida em
que servo. Livre porque realizando o mais desejado dos atos: o mais necessário
para o universo entre os que estão ao alcance desse sujeito, nesse momento,
nesse lugar.
Mas como outra pessoa poderia
nos ensinar qual é o nosso próprio roteiro, o que se descortina naturalmente
quando olhamos a partir do ponto que jaz lá no fundo do fundo de nós?
Talvez por essa razão, de entre
tudo o que já ouviram na Trópis, nossos
jovens tenham escolhido para pintar em uma espécie de portal que há aqui a
antiga frase que Píndaro dizia ser o objetivo de toda educação:
TORNA-TE O QUE
TU ÉS.
Registre-se como parte deste
trabalho a
homenagem e gratidão a Vincent van Gogh.
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