1.1 - EXISTE RELAÇÃO?
1.2 - MAS NÃO TEM CARA...
1.3 - SETE PARÁGRAFOS DE ANTROPOSOFIA
1.4 - SEIS PARÁGRAFOS SOBRE A FILOSOFIA DO CONVÍVIO E SUA
ORIGEM
1.5 - O CONVÍVIO DA FILOSOFIA DA CONVÍVIO COM A
ANTROPOSOFIA
Existe. Porém não é uma relação
fechada, comum ou óbvia. Por isso, tanto para envolvidos como para não-envolvidos
com a Antroposofia, é útil definir como é
essa relação.
(Não dizemos ‘qual é’, pois isso
pressupõe que exista um catálogo previamente definido de relações possíveis, e
isso não é verdade: em todos os campos, as relações mais autênticas são sui generis
– isto é: fundam seu próprio gênero).
Iniciativas de inspiração
antroposófica existem hoje em todo o mundo. Quem já visitou algumas costuma reconhecer
determinadas marcas de estilo – da decoração ao modo de falar e de fazer
as coisas.
Quem chega na Trópis pode muitas vezes
identificar uma ‘cara de 1968’ (que afirmamos ser espontânea, não planejada),
mas dificilmente encontra ‘marcas antroposóficas’. Por isso, ou não suspeitam
que existe relação, ou podem chegar a questionar: ‘mas essa não é A forma
Waldorf de fazer as coisas!’ (Waldorf é um sistema pedagógico de inspiração
antroposófica).
A razão é dupla: (1) Nas
iniciativas antroposóficas, o predomínio de certo estilo é espontâneo e compreensível,
porém de nenhum modo obrigatório. (2) Na formação do ‘rio Trópis’ convergem dezenas de
fontes significativas, entre elas a antroposófica – que é de grande
importância, porém não substitui ou dispensa nenhuma outra. Sendo muito ampla
em si mesmo, alguns imaginam que sua participação numa iniciativa devesse ser
zero ou 100% – mas isso é um mal-entendido. Na verdade, tanto
a obrigatoriedade quanto o exclusivismo são incompatíveis com os princípios
mais profundos da própria Antroposofia.
para
o início do artigo
Antroposofia é uma escola de pensamento e
ação iniciada pelo pensador Rudolf Steiner, que viveu de 1861 a 1925, na
Áustria, Alemanha e Suíça. A maior parte dos elementos presentes na
Antroposofia não são exclusivos dela, porém estão organizados e apresentados de
forma fortemente original, tendo em vista o que Steiner aponta como
necessidades próprias dos tempos modernos.
Steiner deixou 46 volumes de
escritos e mais de 300 de transcrições de palestras – a maior obra de um só autor
já publicada. Trata-se de uma imensa síntese onde estão presentes, entre
outros, o conhecimento científico moderno, a Filosofia desde Pitágoras e
Aristóteles até o idealismo alemão, tradições esotéricas como a hindu-teosófica,
a gnóstica, a nórdica e a cristã-rosacruz – além de contribuições totalmente
originais.
Longe de ser apenas ‘pensamento
puro’, a obra de Steiner propõe caminhos para a pedagogia, a medicina e
farmacologia, a agricultura, as diversas artes incluindo a arquitetura e o
teatro, a religião, a organização social, a economia... No entanto costuma ser
muito estranha para a consciência atual a combinação de detalhamento técnico
(como na economia, fisiologia ou em cálculos arquitetônicos) com exposições
sobre reencarnação e carma, percepções diretas de seres e mundos espirituais
etc.
Para nossos fins queremos
apontar três aspectos do pensamento antroposófico:
(a) Conhecimento: na nossa época o ser
humano é chamado a se relacionar com os planos espirituais não mais
mediante crença, e sim com objetividade científica, desenvolvendo pouco a pouco
uma efetiva Ciência do Espiritual;
(b) Liberdade e evolução: todo indivíduo humano é destinado à
liberdade, a qual porém só é possível e real quando construída a partir do
pensamento (que é em si real!); ao atuar criativamente entre os diversos
campos da realidade, o indivíduo humano é agente da evolução de si mesmo e do
mundo;
(i) Responsabilidade cósmica:
embora a criatividade opere de modo diferente através de cada indivíduo, sua
aplicação deve sempre visar o benefício do todo (social, ambiental, universal);
o ser humano tem a liberdade e o poder de direcioná-la para seu próprio
benefício (ou de seu grupo como separado e oposto ao todo), porém com isso se
torna responsável pela fragmentação e necrose (processo de morte) da realidade.
Desde a década de 1910 se
desenvolveram inúmeras escolas de trabalho prático fundadas diretamente com a
participação de Rudolf Steiner, ou por estudiosos da sua obra. As mais
conhecidas são provavelmente as Escolas Waldorf, a Agricultura Biodinâmica e a
Medicina Antroposófica. É importante notar, porém, que não há razão para supor
que essas escolas consolidadas ao longo do século XX sejam os únicos frutos
possíveis de uma proposta tão vasta, ou mesmo que já tenham alcançado formas
definitivas.
para
o início do artigo
Os princípios centrais a partir
dos quais – e pelos quais – a Trópis
trabalha permitem mas não exigem a aceitação integral do corpus
antroposófico. Mais: trabalham para que haja espaço permanente na sociedade
para idéias assim – porém também para outras, com a condição de que cada uma
delas seja exposta mas jamais imposta, e sobretudo jamais tente
suprimir a outra.
Ou seja: é um sistema que se
preocupa com a garantia do espaço para todas as idéias (noodiversidade ou
ideodiversidade, análoga à biodiversidade), e não com o seu conteúdo,
deixando-o inteiramente ao campo da escolha individual – vedando unicamente o
cultivo de conteúdos que visem a suprimir ou reduzir o espaço de outros.
Identificamos isso como prioritário, pois haverá tempo e condições para
um posicionamento livre frente a qualquer outro tema apenas se este princípio
for implantado primeiro.
Este princípio está implícito em
vários pontos da obra de Steiner, não porém como ponto central ou de maior
ênfase. Além disso, sua presença aí não o faz necessariamente vinculado às
demais partes dessa obra: por sua própria natureza trata-se de um princípio que
pode se fazer presente em qualquer sistema, mas jamais ficar atrelado a
nenhum deles.
Naturalmente esse princípio não
é invenção nem exclusividade da Trópis
– porém é usado aqui na forma de uma sistematização original realizada por Ralf
Rickli, um dos nossos fundadores. Nós o chamamos de Princípio do Pluralismo
Sistemático, entendendo-o como o ‘braço’ ético-prático do Paradigma do
Convívio Universal – que, ao lado
da Pedagogia do Convívio (ou Educação Convivial) e dos
princípios do Minimalismo e da Requalificação da Linguagem,
integra o que chamamos de Filosofia do Convívio.
O fato de que até hoje somente
fragmentos dessa elaboração filosófica tenham sido impressos não significa
que seja coisa recente: desde os anos 80 ela tem sido apresentada oralmente, e
desde os 90 exposta de forma concreta nos trabalhos da Trópis.
Não cabe aqui uma apresentação
detalhada nem desses trabalhos nem dos princípios, pois isso requer vários
ensaios de fôlego. Sobre os trabalhos já há considerável material impresso e na
Internet (em www.tropis.org ), e é nossa intenção publicar mais sobre a
Filosofia do Convívio ainda em 2003.
para
o início do artigo
Ralf Rickli começou a
sistematizar a Filosofia do Convívio
em 1970, ainda na
adolescência. Em 1978 foi apresentado
à obra de Rudolf Steiner, interessando-se sobretudo por reconhecer nela a
presença desse mesmo impulso filosófico. Buscando aprofundamento, passou três
anos em instituições antroposóficas de educação adulta (Emerson College,
Inglaterra e Institut Annener Berg, Alemanha), e trabalhou quase toda a década
de 80 no movimento brasileiro de Agricultura Biodinâmica, financiado para isso
pela ABT (Associação Beneficente Tobias, de São Paulo), de inspiração
antroposófica.
A partir de 1992, com a
concentração nos trabalhos que vieram a formar a Trópis, manteve uma
relação um pouco mais distante com a maioria das instituições antroposóficas,
porém ainda atuando com freqüência como tradutor de palestras e de livros de
Rudolf Steiner. Além disso, diversos membros da comunidade antroposófica de São
Paulo têm contribuído para a manutenção das atividades da Trópis, e desde 2001 a ABT
passou a lhe dar significativo apoio regular, e isso de modo absolutamente
coerente com os princípios mais profundos da Antroposofia – ou seja:
respeitando as características próprias da iniciativa.
A Trópis reconhece, portanto, ter recebido da Antroposofia
grandes contribuições de método e de conteúdo na elaboração do seu pequeno
sistema – pequeno diante dela como um aglomerado globular diante de uma galáxia
– porém intencionalmente pequeno, pois sua funcionalidade reside
justamente nisso, em servir em
qualquer lugar.
Ao mesmo tempo não sente
necessidade de se rotular como uma iniciativa antroposófica – pois deve
permanecer aberta ao serviço de todos, inclusive da Antroposofia, a partir
de suas características específicas. Afinal, é parte da essência do nosso
sistema que todos, sem exceção, devam cultivar seus diferenciais
– não como elemento de conflito, mas justamente para ter com o que
contribuir.
Mais
informações sobre as razões, métodos e história do trabalho da Trópis
podem ser encontradas em outros materiais impressos e na Internet, em www.tropis.org
. O autor está aberto ao diálogo pelo e-mail rr@tropis.org
.