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Setor de InConFormática

 

 

 

TORPEDOS TROPEIROS

contribuições para uma crítica da cultura cotidiana

ou simplesmente

 

MANIFESTOS, PROTESTOS
& ESPERNEIOS EM GERAL

uma página  claramente enviesada!

   
 

Esclarecimento ( I )

Mais que por qualquer outra página dos saites da Trópis, eu, Ralf Rickli, 
assumo responsabilidade pessoal por esta página:

nenhum jovem de hoje seria tão leviano, e nenhum profissional tão troglodita
(ou o reverso, tanto faz) a ponto de assinar embaixo dela!

Mas, brincadeiras à parte, o seu conteúdo é absolutamente sério.
(Justamente por tão sério é preciso brincar para agüentá-lo!)

Digo por quê depois da pausa para o Índice.

 
 

ÍNDICE

Os textos estão colocados em ordem retrospectiva, ou seja:
os últimos SÃO os primeiros 

 

Esclarecimento I

Esclarecimento II (conclusão)

fev.2007

abr.2006

dez.2005

dez.2005

set.2004

mar.2003

dez.2001

abr.2000

1998

Até o próximo crime (olhando um pouco além da emoção)

Esperamos ansiosamente pelo seu NÃO (ou Sim!)

Onde está a saída dos problemas

• Mestres humanos ou crias de Frankenstein

Ensinar a pescar?

Manifesto Pé-no-Chão ao 3.º Setor no Brasil e coisas semelhantes

O Manifesto do Reencantamento do Mundo

Quem avisa amigo é - carta aberta ao (ex)presidente 
que jogou fora a chance de ser o primeiro estadista do 3.º Milênio

Os rebeldes programados da Dona Burguesia

 

para a página-índice geral da Biblioteca

para a página inicial da Trópis

 

Esclarecimento ( II )

Uma das principais observações dos anos lidando com o convívio humano é que
toda violência visível - incluído aí tudo o que se costuma chamar de grosseria - 
surge sem exceção como reação a uma ou mais violências prévias invisíveis 
- ou porque disfarçadas, ou porque praticadas inconscientemente.

Na verdade, as opressões não-percebidas são a regra, são 
talvez a substância mais abundante do cotidiano

Resulta que não há como gerar consciência sem ser no mínimo incômodo - e, assim,
que não há como chegar num convívio verdadeiramente saudável sem passar por incômodos

- pois só da consciência surge responsabilidade, e só da responsabilidade
tudo o que é autêntico, toda vida feita em material maciço, e não meramente
embelezada com reboco.

Alguns dos textos colocados nesta página foram longamente pensados como artigos 
ou manifestos, outros foram regurgitos súbitos diante de acontecimentos idem. 

Alguns soam poéticos, outros só grosseiros mesmo. 

Todos, por enquanto, são de autoria minha ou literalmente nossa - como o 
Manifesto do Reencantamento do Mundo, redigido por mim porém com cada palavra 
discutida com um grupo por semanas a fio - tanto que o título foi escolha do grupo 
(eu preferia "da Vida" ou "do Olhar").

Há contribuições de outros autores que caberiam bem aqui, e dentro de algum tempo 
talvez consigamos inseri-las.

Bom proveito!

   

 

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Até o próximo crime
(olhando um pouco além da emoção)

2 mensagens distribuídas na internet
em 11 e em 21.02.2007,
como comentários à enxurrada de mensagens que estávamos recebendo sobre o caso

 

Sim, eu também chorei ao observar a cena, detalhadamente, na minha tela mental 
(não costumo usar a da tevê, que vem editada demais para o meu gosto).

Mas está difícil conviver com a enxurrada de mensagens e manifestações 
– sem dúvida bem-intencionadas, mas sem a menor noção do que estão falando.

Sim, estou falando da brutal morte de um garotinho de 6 anos arrastado por 15 minutos dependurado do carro da família tomado por jovens assaltantes num subúrbio do Rio de Janeiro.

A maior parte das mensagens clama pra que os governantes façam algum coisa, e rápido. E, talvez para não se sentirem omissos, muitos até sugerem o quê.

Na copa todos viram técnicos de futebol, nestas horas todos sabem a solução – geralmente jurídica e/ou policial. Talvez alguns até ousem acenar para o pedagógico, o que é um passo mais avançado – mas sou o primeiro a concordar que insuficiente.

Pedem leis mais severas – coisa que nunca inibiu e nunca inibirá os dois tipos de gente que comete os crimes mais bárbaros: os psicopatas perversos (distúrbio neurológico) e os que não têm nada a perder.

Pedem o “fim da impunidade”, como se os presídios já não estivessem estourando de gente que cometeu crimes da natureza desse assalto, e muito piores, apenas sem a infernal “ajuda” do acaso que acabou lhe conferidno tamanha visibilidade.

Esperam talvez que se invente um detector de criminosos potenciais, capaz de identificá-los nas ruas antes que cometam qualquer crime. É provável que saibam que a ciência diz que uma corrente sempre arrebenta no elo mais fraco... mas seguramente não sabem que a Teoria do Caos demonstrou que o único modo de a ciência saber com certeza qual é o elo mais fraco é tracionar a corrente até arrebentar – e depois ver qual foi o elo que arrebentou...

Não sei se algum dia haverá como superar totalmente o risco dos psicopatas, que sempre existiu. Mas depois de 14 anos trabalhando e vivendo com jovens de periferia talvez saiba dizer alguma coisa sobre “gente que não tem nada a perder”.

Mas não pensem que depois desses 14 anos eu sugira que levemos mais uma colherinha de açúcar para adoçar o mar.

Que nós continuemos a acreditar que a chave do progresso é um sistema de geração de riqueza que não tem como funcionar sem que haja sempre uma considerável massa de desempregados de reserva, e que esse desemprego em massa gere vastas regiões onde crianças crescem sem chance de nenhuma amostra do que é bom, belo e verdadeiro –

... pois inclusive na mais tenra idade toda pré-escola que se lhes pôde oferecer foi uma tevê sabiamente orientada pelas leis do livre mercado...

... em que o entretenimento-padrão era assistir crimes bárbaros um após o outro, horas, dias e anos a fio, resultando em imbecis incapazes de perceber o mínimo valor numa vida humana, nem distinguir o encenado do real – e isso só para começar...

... não, isso tudo não tem nada a ver com o caso não. Dizer que o sistema capitalista é o culpado é coisa de dinossauros, o muro de Berlim já caiu, a história-como-busca acabou, já vivemos no melhor sistema possível.

Moderno mesmo é procurar um bode expiatório e pregar na cruz. Aí poderemos dormir tranqüilos.

Até o próximo crime.

Palavras que acompanharam a segunda mensagem (21/02):

Prezados - espero de coração
 não estar sendo importuno!

Acontece que VOCÊ estava entre as pessoas que receberam meu texto de 11/02 (Até o próximo crime),
o qual parece ter deixado espaço para alguns mal-entendidos,
de modo que me sinto no dever de acrescentar alguns parágrafos que deixem mais nítida a imagem pretendida.

Abraços sérios,

Ralf Rickli
Pedagogia e Filosofia do Convívio
Comunicação Transcultural

 

Para uma missa de 14 dias numa 4.a feira de penitência
PS ao artigo "Até o próximo crime (olhando um pouco além da emoção)"

21.02.2007

 

Ah, se fosse assim tão simples! Se houvesse pessoas más em um lugar, insidiosamente cometendo más ações, e se nos bastasse separá-las do resto de nós e destruí-las! Mas a linha que divide o bem do mal atravessa o coração de todo ser humano. E quem se disporia a destruir uma parte do seu próprio coração?

A.Soljenitsyn (apud Zweig e Abrams, Ao encontro da sombra)

Nada, jamais, pode ser entendido a menos que olhemos por muitos lados, dos quais alguns serão sempre aparentemente contraditórios (ver p.ex. a Teoria da Complexidade de Edgar Morin). O que estou fazendo aqui é compartilhar alguns ângulos que até agora não vi explorados na imprensa nem nas mensagens da internet, sobre a morte do menino João Hélio em 07.02.2007 e sobre o seu contexto.

1. O alcance limitado das leis

Por um lado, não há dúvida de que muita coisa pode e deve ser melhorada nas leis brasileiras.

Por outro, é absoluta ilusão imaginar que exista alguma melhoria possível no aparato de leis e no sistema repressivo que possa dar garantia de que um tal crime nunca venha a ocorrer. Podemos tentar reduzir as probabilidades, mas alguma possibilidade sempre restará, como parte das incertezas inexoráveis da existência.

Um dos mais fortes clamores logo após o crime foi por “providências imediatas das autoridades”, como por algo de novo. Na realidade as providências cabíveis já estão previstas nas leis, e são precisamente as que foram tomadas: a prisão, em poucos dias, de todos os responsáveis.

Quanto às leis que serão aplicadas no processo que se seguirá, é provável (como já disse) que possam ser bastante melhoradas - mas de nenhum modo se pode dizer que sejam brandas. E pensar que qualquer endurecimento adicional pudesse ter impedido esse crime e outros semelhantes, isso é acreditar em varinha-de-condão.

Além disso, pensar que as leis devam ser mudadas a cada crime que chega a acontecer, “pois, se as leis fossem acertadas, os crimes não aconteceriam”, é falar com um desconhecimento de causa atroz; com uma leviandade que, sobretudo quando reforçada pelo poder formador de opinião da grande imprensa, chega ela mesma a ser criminosa.

2. Há algo de novo nesse crime?

Paulo Coelho referiu-se a esse crime como sinal de o quanto estaríamos nos aproximando do “mal absoluto”. Por melhores que sejam as intenções, isso também não passa de fantasia que termina por nos obscurecer a percepção do real, e com isso termina atuando no sentido contrário das boas intenções.

Por triste que isso seja, não há novidade nenhuma em um crime assim na história humana. Os mais antigos textos da humanidade, inclusive o Velho Testamento, estão repletos de relatos das maiores atrocidades cometidas por “dá cá aquela palha”. Dostoievski gasta algumas das mais profundas e quase insuportáveis páginas de Os Irmãos Karamázovi relatando as mais bárbaras atrocidades contra crianças, muitas delas cometidas pelos próprios pais - baseando-se para isso em notícias dos jornais da época.

Eu gostaria, aliás, de poder dizer que a atual indignação diante de crimes assim fosse um sinal de estarmos, ao contrário, nos deslocando na direção do bem... mas creio que também seria ilusão: por um lado, como em certos relatos bíblicos, a indignação em si justa continua levando a reações que são às vezes tão ou mais iníquas que o crime original.

Por outro, porque a violência física e/ou psicológica contra crianças (sem nem falar agora de outras categorias de violência) continua um dos fatos mais comuns do nosso cotidiano – e embora com não muita freqüência, não se deve desconsiderar que tal violência às vezes chega a resultar em morte (direta ou indiretamente, como suicídio).

Mais significativos, porém são os aleijões psíquicos resultantes, encontrados na maior parte da população (isto é: de nós), os quais são sem sombra de dúvida uma das principais vertentes que alimentam a probabilidade de crimes como o perpetrado contra João Hélio.

A inequívoca culpa da instituição “família”, como a conhecemos, está sobejamente demonstrada por gente como Ronald Laing ou Arnaldo Rascovsky, mas preferimos continuar nos fazendo de desentendidos, dizer que tais estudiosos é que são mentes doentias e – como faz o Estatuto da Criança e do Adolescente – fantasiar que a família como a conhecemos seja parte da solução, e não do problema. No mínimo por essa gigantesca mentira somos sim todos culpados - desta vez concordando no genérico com a formulação de Paulo Coelho.

3. Coloque-se no lugar por um instante

O ser humano é incapaz de compreender o que quer que seja a não ser quando se coloca “no lugar de”. Isso não necessariamente significa perdoar! – mas entender é essencial mesmo quando não seja para perdoar.

Neste caso é evidente que a intenção inicial do grupo criminoso não era matar nenhum garotinho: era roubar um carro, fazendo o que fosse necessário para isso. Não são mais monstros do que milhares e milhares que continuam por aí com intenções do mesmo tipo. Nem um pouco mais, aliás, do que um especulador de bolsa que tira vantagem de quebrar um país, mesmo sabendo que milhares de crianças irão sofrer ou mesmo morrer em conseqüência disso.

Por que os ladrões não pararam ao perceber que o garotinho estava lá? Uma, porque haviam saído para a guerra; e a diferença entre essa violência e outra qualquer mais comum (como por exemplo atirar na mãe diante da criança) termina desaparecendo na embriaguez do calor da batalha. (Ou será que também não é verdade dizer “na lucidez do calor da batalha?” Pois trata-se de um estado endógeno bastante semelhante ao do efeito da cocaína - lucidez de raciocínio com supressão dos sentimentos -, droga presente em boa parte das decisões de altos executivos, como as referidas no parágrafo anterior.

Para concluir este aspecto: me pergunto como é que não se está vendo que, sendo os ladrões quem eram e vivendo onde viviam, era evidente para eles a altíssima probabilidade de serem imediatamente linchados se parassem o carro para soltar o menino!

4. Onde concordo com a insuficiência das penas - porém de outro jeito...

A irmã de João Hélio falou que os criminosos devem “pagar pelo que fizeram”, independente da sua idade. Natural que o diga, é quase uma criança. Mas alguma pessoa madura pensará que há no mundo preço capaz de pagar pela vida de uma criança? Desculpem, mas, se pensar isso, é que ainda não está madura, mesmo que tenha 60 anos!

A idéia de justiça como castigo ou punição é uma infantilidade ou primitivismo que precisa ser superada o quanto antes. Há só três sentidos racionalmente consistentes na aplicação de penas (palavra já em si inadequada): (1) a tentativa de reeducação ou de terapia do criminoso, tanto quanto possível; (2) quando possível, a reparação objetiva do dano (por objetiva quero dizer: de valor não meramente simbólico), o que em si também é parte do primeiro sentido (reeducação ou terapia); (3) quando impossíveis os casos anteriores, o isolamento continuado do criminoso, não como punição mas como proteção ao restante da sociedade.

Em artigo na Folha de S.Paulo em 15/02, o psicanalista Contardo Calligaris dirigiu sua usual lucidez contra a hipocrisia que nos impede de aceitar essa realidade: independente de sua idade no momento do crime, o ser humano psicopata precisa ser isolado e tratado até que possa ter alta com considerável segurança – o que pode levar 10 anos, ou nunca acontecer.

Isso equivale a dizer que precisamos, sim, contar com a instituição da internação perpétua - e também com a internação de menores por mais de três anos. Contardo tem razão: negá-lo é irracional e hipócrita. Porém...

É importante perceber a imensa diferença entre esta posição conquistada por conhecimento e por racionalidade, e aquela outra que prevê aparentemente as mesmas coisas com o caráter de castigo. No mínimo porque estamos falando de tentativas de terapia e/ou reeducação reais, quando cabível, não dos simulacros usuais. E de, quando a recuperação não for possível, de internação em condições humanamente dignas – que de nenhum modo facilitem a continuidade das ações criminosas (como os famosos celulares) mas, sim: em condições humanamente dignas. Pois não se trata de castigo nem de punição, e sim de proteção universal a todos os seres humanos: tanto aos que estão fora, como à pessoa do próprio criminoso, a ser protegida de seu próprio lado destrutivo quando insuperável.

5. "Nós" e "eles": o lado mais delicado da questão

Tudo isto, porém, esconde ainda mais uma questão – uma questão tão profunda, tão grave e que o país denega tanto, que sei que corro o risco de ser eu acusado de doente por tentar expor a doença denegada (em termos psicanalíticos, aquilo que negamos que existe, e em seguida negamos até que tenhamos negado... pois... afinal... “não existia nada lá para ser negado, não é mesmo?”)

A maior parte das propostas partem do pressuposto de que há grupos nitidamente separados na sociedade: “os cidadãos de bem” e “os bandidos” – ou pelo menos um grupo do qual às vezes sai um crime, mas é exceção, e outro do qual saírem crimes é a regra. Dois grupos que seria possível identificar com clareza – pois se não como se poderiam tomar medidas de precaução, como se quer?

Trata-se de uma operação muitíssimo bem conhecida na psicologia, sobretudo na junguiana, com o nome de “projeção da sombra”. No fundo todos sabemos que somos capazes do mal, que somos todos capazes de todos os crimes – mas negamos ter em nós a parte que seria capaz disso.

E então escolhemos um outro que pareça bem diferente de nós, e imaginamos: “se existem no mundo tendências ao mal, elas estarão lá, no que é bem diferente de mim. Em mim e nos meus não há nada disso não!” Não importa quem esteja falando, o mau é sempre o outro, nunca eu! Somos uma imensa sociedade de “eus” inocentes e de “outros” culpados...

É óbvio que o outro também tem sua própria fração de maldade: é humano! Mas a maldade que eu imagino estar vendo nele não é a dele: é a minha, que eu nego ter.

E isso se torna especialmente perigoso quando passa à dimensão grupal, ou ao imaginário social: arianos e judeus, hutus e tutsis, “cidadãos de bem” e “bandidos em potencial”.

Não cabe detalhar aqui os meandros históricos do caso brasileiro, o que daria diversos livros (e já tem dado; ver p.ex. o de Roberto Gambini) – mas grosso modo as classes alta até média-média (fortemente minoritárias) se identificam como “os cidadãos de bem” e projetam no restante da sociedade (a grande maioria) a imagem de “bandidos em potencial”.

Como já disse no artigo inicial, falo a partir de 14 anos de trabalho e convívio íntimo com moradores de favelas e situações semelhantes – ou seja: “bandidos em potencial”. Alguns de inteligência e sensibilidade refinadíssimas e com as mais nobres escolhas de vida... mas pela generalização corrente todos “bandidos em potencial”.

É daí que sei que as medidas que os “cidadãos de bem” costumam exigir terminam significando apenas um aumento da tensão e do risco de arbitrariedade sobre uma população que já é a principal vítima da situação toda, uma população que convive no dia-a-dia, anos e décadas a fio, com um grau de sofrimento que os senhores “cidadãos de bem” não conseguem nem supor que seja possível alguém agüentar dois dias.

Mas quem é essa população?

Deixemos a hipocrisia de lado: são basicamente os descendentes de (1) os ameríndios expropriados de suas terras e culturas a partir de 1500; (2) os africanos escravizados e depois abandonados sem condições de recomeçar, sob o nome “libertação”; (3) os brancos que não tiveram competência (ou insensibilidade?) suficiente para garantir seu lugar entre os que se aproveitaram dessa situação.

A mera existência dessa população é um lembrete incômodo de que, em nosso país, TODO o bem-estar de que alguém desfrute vem assentado, alicerçado, nesses dois vastos crimes fundadores.

E aí precisamos desesperadamente esquecer que nosso bem-estar se alicerça no mal, precisamos desesperadamente mostrar que o mal é característica exclusiva deles lá, não nossa.

(Que um pitbull que guarda propriedades dilacere uma criança na rua - como já aconteceu... isso causou algum apelo por pena de morte aos proprietários irresponsáveis de pitbulls?)

Para concluir: a pesquisa genética já demonstrou que a população branca brasileira só tem cerca de 1/3 de gens brancos pelas linhagens maternas: os outros 2/3 são mais ou menos igualmente divididos entre gens ameríndios e africanos.

O mais trágico dessa situação toda é então o patético esforço de negar em nós, “os de sucesso”, qualquer parentesco com “essa gente lá”, traindo o que trazemos em nós de nossas avós, bisavós, tataravós.

Como lidar com isso? Não é assunto para um fim de artigo! Talvez para outro artigo, porém mais realisticamente para uma série, uma obra, várias vidas...

Me limito agora a declarar, com a mais absoluta convicção, que não haverá melhora no país, por séculos, a menos que “os de cima” se assumam como os iguais e irmãos “dessa gente” que de fato são;

... a menos que desistam inclusive de mentir que pretendem incluir “os de baixo” no seu projeto “de cima” (o que é evidentemente impossível, nem o planeta o suportaria!), e passem a se incluir junto aos de baixo num vasto projeto único de busca de bem-estar para todos...

(... o que talvez devesse começar por abandonar a segregação dos seus filhos nas escolas particulares).

Isso jamais? Ah, então não se queixem das conseqüências, senhores! A escolha foi vossa!

Da minha parte estou aqui tentando fazê-lo em respeito aos evidentes traços indígenas da Dona Zica, minha avó (sempre negados na família...) e à linhagem de valentes escravas e pós-escravas emprenhadas por filhos de senhores, de onde saiu meu avô Seu Aníbal... (e, de resto, a tudo o que o mato tenha conseguido gerar de caboclo nos suíços Rickli em 138 anos).

Porque aqui, descalço neste chão e com os ancestrais vibrando em mim, eu ainda consigo sentir um pouco de esperança. Nas justificadas prisões que são esses apartamentos de luxo pretensamente globais, não há mesmo outra coisa a enxergar a não ser crescente desagregação.

Culpa de quem?

   

 

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Esperamos ansiosamente pelo seu 'NÃO'
 (ou pelo SIM!)

uma
 declaração de princípios
e um grito de campanha

em forma de mensagem a
AMIGOS
PARCEIROS
e
CANDIDATOS A

de todos os tipos,
 profissionais e pessoais

Escrevi esta mensagem como:
(1) amigo dos amigos pessoais
 a quem me dirijo
(2) principal formulador das idéias que tentam se realizar na Trópis

- porém não como coordenador ou representante oficial da Trópis,
já que o tema não foi debatido em círculo.

03.04.2006
(a)
Ralf Rickli

 

Esta mensagem vai para dizer o quanto espero pelo seu NÃO!

Mas não me entenda mal: gostaria ainda mais de receber um SIM aos convites ou propostas que eu tenha lhe enviado - mas, se isse não for possível, que venha logo o "não", ou pelo menos um "aguarde, estou/estamos pensando no assunto".

Todos nós sabemos: na cultura brasileira a palavra "não" é tabu, não pode ser pronunciada...

Existem coisas maravilhosas na cultura brasileira, outras terríveis, geralmente as derivadas da escravidão - especialmente a desvalorização do trabalho físico e o tabu quanto a expressar desacordo, ou seja: dizer "não".

Ora, é claro que uma vida só de concordâncias não é possível! O que precisamos é estar de acordo que não ficaremos de mal por discordarmos aqui e ali, pois ali e aqui também concordamos! Mas se não sabemos dizer "não", boa parte da vida se torna apenas um cenário,
uma mentira...

... e fica complicadíssimo viver, porque nunca sabemos com certeza sobre que pedra podemos construir, porque é real, sobre qual não podemos, porque é cenário.


Creio que existem duas formas principais de não dizer "não": a tradicional, que é dizer "sim" e fazer outra coisa, e a nova, que é simplesmente não dizer nada.

Dá para escrever uma tese inteira sobre as implicações das duas, mas... - não, não se assuste, não vai ser aqui!

Por agora queria apenas que você, de coração, sentisse, como eu, que nada vai melhorar e que nossas mais lindas intenções e discursos viram farsa nociva se não aceitarmos o desafio de transformarmos nossa cultura nesse ponto.

Afinal, qualquer uma das formas de não dizer "não" é um meio de fazer nossa vontade prevalecer sobre a do outro deslealmente, sem o ônus de lutar ou de carregar qualquer responsabilidade por isso.

Exemplo típico é o "cozinhar em água fria": não digo o que quero nem o que não quero, nem dispenso o outro, mas vou levando até que ele não agüente mais e tome uma atitude - muitas vezes uma explosão em desespero de causa, para não "ter um treco" - e aí eu consegui o que eu queria... deixando a responsabilidade ou culpa recaírem sobre ele.

Outra razão comum é tentar evitar que me fechem portas embora eu não assuma nenhum compromisso de entrar. Ou seja: tentar não excluir de antemão possíveis vantagens que talvez possa haver no futuro - não me importando um mínimo com quê prejuízos minha indefinição poderá causar nos processos do outro.

Por inofensivas que essas coisas pareçam, olhadas com cuidado as palavras que lhe cabem não são menos que "manipulação"  e "opressão".

E por essas e outras é que dizemos sempre que a única coisa capaz de melhorar o mundo será "uma revolução ética na micro-estrutura do cotidiano".

 

Mas não quero terminar sem comentar a forma mais moderna, aparentemente elegante, profissional e clean que a mesma coisa vem assumindo agora, especialmente em São Paulo:

julgar que é aceitável, entre dois seres humanos, não responder nada quando outro nos dirige a palavra. Agir como se o outro não existisse - coisa que jamais foi considerada decente ou aceitável em nenhuma cultura humana.

Em alguns lugares e épocas, fazê-lo seria o mesmo que convocar um duelo de vida ou morte, quem sabe uma guerra de clãs - e mesmo os ingleses, tantas vezes tão friamente soberbos, eram tradicionalmente ensinados a nem abrir uma carta se já não tivessem em mãos papel, pena e tinta para a resposta.


Mas hoje, para muitos, ignorar a pergunta do outro (oral ou escrita) é uma atitude natural, em que nem há o que justificar. Alguns, ainda um pouco mais humanos, dão algumas desculpas típicas
- que todos concordamos em engolir mesmo sendo evidente que "não colam":

- Recebo dezenas ou centenas de mensagens todos os dias, a maior parte spam,
e não tenho como identificar uma ou outra importante no meio dessas.

Ora, com 200 mensagens diante mim, na verdade 1 ou 2 minutos são suficientes para reconhecer quais são anúncios, quais têm caráter de comunicação pessoal. - A outra é:

- Com tanto trabalho, simplesmente não tenho como responder.

Ora, na verdade todo mundo sabe que (como dizia sempre minha mestra de piano, Ingrid Seraphim): "ter tempo é uma questão de preferência", e se o outro tomou do seu tempo para dirigir a palavra a mim - porque viu razões para isso - o que me dá o direito de achar que isso não custou nada a ele, ou que só o meu tempo tem valor?

 

Claro, é evidente que tenho todo direito de preferir não interagir com fulano. Mas se ele me dirigiu a palavra pessoalmente, a coisa menos brutal que posso fazer é dizer "não, obrigado, não quero", ou no mínimo (se for verdade) "agora não".

Isso parece brutal?

Brutal mesmo, indignamente brutal, degradantemente brutal,  é fingir que não ouviu...

... atitude que, como já disse, nunca foi aceita nas culturas tradicionais da humanidade - nem pode ser aceita por ninguém que se proponha a cultivar uma vida humanamente digna.


O "berro" que eu, pessoalmente, costumo dar diante dessas situações costuma ser interpretado como grosseria... da minha parte!... Porém toda violência que aparece é reativa - ou seja, surge em reação a uma violência anterior silenciosa ou invisível. Reparem, e verão que essa é uma lei tão infalível quanto a da gravidade.

Deixo claro então que dou meu já conhecido "berro" como ato revolucionário: 

um ato consciente de não-aceitação e denúncia de uma mais que grosseria, de uma forma de violência que se conta entre as principais responsáveis pela degradação do convívio humano, pelo estado de desrespeito recíproco surdo, invisível, porém constante que nos acostumamos a considerar natural!

 

E o outro caminho é tão simples...

Não quer aceitar meu convite, minha proposta, meu projeto? Por favor, diga "não". Isso me deixa livre para procurar outro parceiro, outro caminho.

Não tem certeza de que quer dizer "não"? Por favor, diga isso - ao mesmo tempo que propõe (a mim e a si) um prazo para sua decisão. Diante disso também posso desenvolver no mínimo um planejamento relativo ou condicional das minhas ações.


Seremos imensamente gratos, portanto, pelo seu nítido "não", ou "agora não"!

Deixando claro, porém, que não é que morramos de amores pelo "não": quando você disser "sim" seremos mais que gratos, seremos exultantes - e iremos logo procurar, juntos, alguma maneira de celebrar!

Afinal, é por uma vida de verdade que lutamos (e essa luta 
com certeza será mais saborosa com você ao lado!)

   

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ONDE ESTÁ A SAÍDA DOS PROBLEMAS

da Associação TRÓPIS
a seus amigos

no Natal de 2005

Quando algum amigo ou amiga diz que está enfrentando problemas, 
costumamos dizer - brincando porém a sério: "é prova de que você está vivo(a), 
pois viver significa enfrentar problemas"...

Mas geralmente o assunto não termina aí:

muitas vezes vemos claramente que essa pessoa encontrará soluções para os seus problemas - ou pelo menos encaminhamentos para eles - se parar de tentar enfrentá-los diretamente, no seu campo de batalha de sempre, e vier nos ajudar a enfrentar os nossos problemas (ou os de outras pessoas ou grupos que trabalham como nós na reinvenção da possibilidade do Convívio Humano).

Aí fazemos o convite: "olha, a solução que você procura pode estar aqui, 
por que você não vem nos ajudar uns dias?"

E aí...

nosso amigo ou amiga se desculpa: "eu gostaria muito de poder ajudar, mas agora não dá.
Preciso primeiro resolver estes meus problemas. Depois que eu resolver, eu vejo se tiro uns dias e vou lá ajudar."

Não sei se ela ou ele realmente acredita que um dia estará de fato sem problemas, como condição para ajudar os outros - o fato é que segue lá, se batendo sozinha(o) com problemas
que nós podíamos ajudar a enfrentar...

... e nós seguimos aqui com os nossos, apesar da nossa boa disposição!

Quando é que vamos todos acordar para o fato de que O NOSSO DESTINO NOS FALA SEMPRE ATRAVÉS DAS NECESSIDADES DOS OUTROS QUE PÕE EM NOSSO CAMINHO?

Quanto mais cuidamos da nossa vida a partir de razões puramente nossas, isoladas, menos livres nos tornamos: mais e mais ficamos na dependência da "proteção" do "sistemão" monstruoso da vida moderna - que cobra "apenas" a transfusão da nossa Vida para suas veias, e de nossas almas para seus nervos metálicos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nesta época do ano 
as celebrações de insuportável mau-gosto e hipocrisia que vemos  por todo lado 
buscam neutralizar o verdadeiro sentido da mensagem do suposto homenageado: 
"levai as cargas uns dos outros"...

... mensagem sem o menor laivo de beatice ou ingenuidade 
- pois se a levássemos a sério de modo constante, o resultado seria 
uma teia indestrutível de pessoas
garantindo a Liberdade umas das outras!

SOLIDARIEDADE LIBERTÁRIA.

Afinal,

se é verdade que o Divino se encontra em semente em cada ser humano individual, o fato é que tal semente nem ao menos germina senão quando inserida no terreno que é a VIDA CONJUNTA (humana e dos demais seres da Terra e do Universo): tornar-se divino é assumir responsabilidade pelo sustento e bem-estar de algo além de si.

Eis aqui, então, o nosso presente de Natal:

TEmos um monte de problemas esperando por você!

Mas só os oferecemos porque sabemos que frente aos seus problemas 
eles podem representar caminhos, soluções & libertações!

Que tal aprofundar nosso envolvimento em 2006?


Com um abraço humano caloroso,
Ralf Rickli & o pessoal da Trópis

Beija-Flor: foto de Carlinhos do Santos incluída na mensagem original

   

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Mestres humanos ou crias de Frankenstein

Trabalho de 64 páginas
 publicado na internet e em apostila
 em dezembro de 2005

Nesta página:
link para download em doc/zip

O trabalho com o título acima nos ocupou quase integralmente por 70 dias de 2005, e é uma proposta positiva para os cursos de formação superior de professores e outros profissionais da Educação (hoje divididos em Pedagogia, Licenciaturas e Normal Superior).

Tal proposta positiva só faz sentido, no entanto, no contraste tanto com os modelos já estabelecidos quanto com as novas diretrizes baixadas pelo Conselho Nacional de Educação.

Desse modo, uma parte do trabalho foi a análise crítica de uma das últimas versões de trabalho dessas diretrizes, distribuída no mundo pedagógico brasileiro em setembro de 2005 
- e aqui foi inevitável descambar precisamente para o "modelo torpedo".

Para dar idéia, transcrevemos aqui os títulos de capítulos da seção em questão,
colocando em seguida um link para download do trabalho - inteiro, 
inclusive as propostas positivas! - em formato doc/zip.

1.2.1. Manejo deficiente da lógica - ou a ruptura cérebro-cabeça

1.2.2. Confusão entre levantamento histórico e justificação

1.2.3. Curso de Pedagogia, licenciado, disciplinas pedagógicas:
          a casa com alicerces no telhado

1.2.4. Confusão quantidade-qualidade; o autotratorvião

1.2.5. Ideologização das contribuições integrantes

1.2.5 e meio: Um meio passo adiante

1.2.6. Desonestidade nuclear: o punhal nas costas das habilitações

Para o download clique ou vá até

http://www.tropis.org/biblioteca/pc11-formamestres.zip

 

 

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Ensinar a pescar ?

Escrito de chofre e divulgado
 entre amigos na net em 29.09.2004

enquanto escrevia o artigo
 Sustentabilidade, Trimembração e Redes


Inspirado no fato de que a maior parte das pessoas que falam de 'não dar peixe, ensinar a pescar' ignoram totalmente a realidade das pessoas que propõem ensinar, bem como as verdadeiras relações econômicas entre os diferentes setores da sociedade

Não me venha com esse papo de me ensinar a pescar.

Essa não é minha profissão e não pretendo que um dia venha a ser.

Ademais, não estou pedindo que você me doe esse peixe,

estou pedindo apenas que me entregue alguns do que pescou

em troca das redes que fiz , das varas que preparei,

das trilhas que abri no mato até o rio

para você pescar

   

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MANIFESTO PÉ-NO-CHÃO
ao terceiro setor no Brasil e coisas semelhantes...

divulgado em 12.03.2003 na Lista FundBR

(ponto de encontro internético de captadores e outros interessados em captação de recursos para o Terceiro Setor)

De repente me vem a imagem de meu pai Otto Rickli, saído da roça e formado médico depois dos 30, comentando pensativamente aos 50 a sentença que lera em Tolstói: “ser pobre em um país de ricos é uma vergonha – mas ser rico em um país de pobres é um crime...”

Não duvidei: era o óbvio. Mas nunca achei que as receitas tradicionais, nem da direita nem da esquerda, dessem conta da realidade. Professores politicamente avançados também podem ser mortalmente chatos, destruindo nos alunos todo prazer de conhecer – e sabemos quantos desastres tanto o Oeste quanto o Leste impingiram ao meio ambiente. Por isso sempre fui atrás do alternativo: no conhecimento, na agricultura, na educação, na administração...

Nessa busca fui parar na Inglaterra, onde deparei com Judy Hurley (depois Bloomgardener), egressa de quantos movimentos alternativos norte-americanos se possa imaginar: anti-nuclear, feminista, de agricultura orgânica...

Assim que voltei, minha mestra quis conhecer o Brasil. Preparei cuidadosamente uma agenda visitando tudo o que me pareceu alternativo no novo país que eu encontrara (pós-abertura Geisel). Judy passou zunindo por tudo aquilo e poucos dias depois estava profundamente envolvida com as Comunidades de Base da época (1982) – que me pareciam então de um esquerdismo tão convencional e pouco... “alternativo”...

Diante da minha surpresa, Judy deixou claro entender que uma alternativa que não se referisse à absoluta maioria da população do país não era alternativa nenhuma, era pura imitação de modelos externos. Seu trabalho, na realidade norte-americana, havia sempre sido política de base. A política de base aqui seria outra, de acordo com as urgências locais. (Depois disso Judy coordenou por alguns anos o movimento Abraço, nos EUA, pelo cancelamento da dívida do Terceiro Mundo, antes de se assentar como terapeuta de refugiados...)

 

Revejo o caminho mais uma vez: 

1968: eu, com 11 anos, olhando fascinado de longe as cores do movimento hippie... Depois, com 20 e pouco, me engajando quando esse já tinha virado “movimento alternativo”... Pra me contarem, aí pelos 40, que eu era parte do “terceiro setor”: iniciativa da sociedade civil com objetivos sociais.

Hoje não dou conta de ler os inúmeros boletins e anúncios de seminários que me prometem ensinar como cuidar do Terceiro Setor com as ferramentas da Administração de Empresas – ou então como cuidar da Administração de Empresas com ferramentas, digamos, alternativas (p.ex. meditação).

Tudo incrível, maravilhoso. E inacessível a quem vem há anos tentando desenvolver, no nível do chão, “sem parentes importantes e vindo do interior”, alternativas reais para jovens que encontram limitações econômicas na sua busca de desenvolvimento humano integral.

O número absoluto está obviamente superado
 - deve beirar 160 milhões em 2006.

 A expressão em porcentagem é provavelmente próxima da realidade, e hoje não apenas para o Brasil mas para o mundo como um todo

... fato que talvez se possa relacionar com o rótulo "brasilianização da sociedade", criado por sociólogos e economistas de outros países na década de 1990 ou pouco antes.

 


Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
 Sapo-cururu
Da beira do rio...

Manuel Bandeira, em Os Sapos (1918)
- partindo da canção infantil, é claro!

Este é o fim do poema, que antes descreve uma competição de falas vaidosas entre os mais variados sapos (referência não explicitada na primeira divulgação deste texto)

Colegas: pelo menos 85% dos brasileiros, 145 milhões, “encontram limitações econômicas nas sua busca de desenvolvimento humano integral”. Sim, não menos – se isso inclui, p.ex., um bom psicoterapeuta, um ensino inspirador, um pão integral sem resíduos tóxicos... um bom seminário sobre cooperação.

E as alternativas maravilhosas que cintilam na internet, atingem a quantos deles mesmo? Ou, mesmo que pretendam, quanto do investido chega ao nível do chão, quanto fica pelo caminho remunerando a tão decantada profissionalização do terceiro setor?

A qualidade dos serviços sociais profissionalizados agora encanta nossa sociedade esclarecida – na forma de balanços e relatórios bem escritos! Quem vai lá conviver com os atendidos alguns dias e sentir a qualidade do conteúdo do trabalho?

Os meios adoram tomar o lugar dos fins, e o acessório custa várias vezes o essencial.

Pois já o “investimento” requerido pelos cursos que prometem ensinar uma pessoa a gerir adequadamente a relação custo-benefício nas iniciativas sociais, esse investimento é com freqüência um múltiplo qualquer do valor com que a iniciativa, de um jeito ou de outro, fazia mensalmente o milagre de atender umas dezenas de crianças, ou algo assim. 

Quanto altruísmo da parte de profissionais que deverão abrir mão da maior parte do retorno desse investimento! Ou... ?

Pois é, uma suspeita chata insiste em zunir em volta da minha cabeça: essa tal profissionalização do terceiro setor não seria apenas um mercado de trabalho alternativo vislumbrado pelos profissionais da área econômico-administrativa, pressionados demais no seu próprio setor – porém menos preocupados com os efeitos sociais últimos de sua atuação que com o preço da banana no interior da Nova Guiné?

Mas não, não, imagine se uma coisa dessas seria possível, longe de mim tal interpretação maldosa!

De um modo ou de outro, fica cada vez mais difícil, a simples cidadãos que quiseram tomar uma iniciativa social, conseguir realizar alguma coisa, ou mesmo sobreviver, nesse mundo tão profissional! Não dá mais pra ser cooperativo a não ser competitivamente!

Mas como sempre houve gente estranha nesse mundo... ainda estamos aqui... sapo cururu... na beira do rio... à espera de colaboração... da cessão de uso de bens, como sempre cedemos... da doação de serviços, como sempre doamos... ou de sua execução por remuneração simbólica, como a que qualquer professor de escola pública recebe mês após mês... fazendo de um modo ou de outro nossos pequenos milagres... neste país exótico aqui embaixo, onde ainda se anda com pés no chão.

(Obs.: será que alguém mais anda pensando nessas coisas? Fiquei curioso!)

 

 

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O Manifesto do Reencantamento do Mundo

 

 

Este texto foi escrito
 ao longo de várias semanas de debates
  com jovens da periferia paulista
 no Núcleo de Estudos Trópis

... a partir do mote "Reencantamento da Educação"

... surgido em conversas e aulas com os Profs.Drs.Marcos Ferreira Santos e
José Carlos de Paula Carvalho
,
 do CICE - Centro de Estudos do Imaginário, Cultura e Educação da FEUSP

Jovens e adultos, crianças e velhos de coração vivo, 
recusamos acreditar que a vida tenha que ser tão besta como nos tem sido apresentada. 
Um mundo em que todos têm que rosnar uns para os outros, e cumprir metas cinzentas, 
que ninguém sabe quem estabeleceu – nem a que levam.

Acontece que o suco da realidade está além do que pode ser reduzido a peso, medida, preço. 
Isso é só o esqueleto. Viramos um mundo de roedores de ossos. Queremos mais que isso. 
Podemos
mais!

Salvar Galileu e queimar Giordano Bruno deu numa civilização manca. 
Mas nós não embarcamos na viagem dos céus vazios e silenciosos
(Nietzsche)
Assumimos nossa porção índia e suas lições, e estamos vendo que o Universo é inteligente, 
e que todos os seres se comunicam em existência e em sentido. 
Tudo tem alma, sentido, consciência, intenção. 
Tudo
dialoga com o ser humano, se este quiser escutar.

Encantamento! Não, não falamos de simulacros, de sonhos enlatados disneyanos 
pintados em paredões sem vida, nem de telinhas fosforescentes numa vida-prisão. 
Falamos de consciência aguda do Momento e do Lugar. 
Você frente a frente com as coisas, cara a cara com a Vida. 
Vendo mundos em grãos de areia, e um céu numa flor do mato
(William Blake).

Sábio é quem com tudo se espanta (André Gide). Gente como Goethe e Aristóteles via aí 
o princípio de toda Ciência; você acha bobagem? 

Olhos de criança ávida de conhecer o mundo! Todo Ser Humano é capaz de se encantar... 
e de em seguida reencantar o mundo. Com mãos de Amor.

Foi lançado como parte de uma campanha
 com uma leitura cênica

 por Anabela Gonçalves
  Gil Marçal
 e Ralf Rickli

no intervalo de um show da banda Provisório Permanente

aquela noite representada por
 Gunnar Vargas, voz e violão
Peu Pereira, gaita
e Pitu Leal, bateria

 no Centro Cultural Monte Azul,
  São Paulo, em 01.12.2001

 

É sério: só com profissionais encantados teremos mundo onde valha a pena viver. 
Não só os artistas e cientistas. Para o professor, é óbvio, essa é a primeira condição. 
Mas não basta: o DELÍRIO RESPONSÁVEL precisa chegar ao hardcore dos que fazem este mundo: 
engenheiros, advogados, administradores... 

Até que o sonho realize cidades menos irracionais, até que os funcionários dos três setores suicidem essa violência estéril chamada burocracia, até o último juiz enxergar que condicionar Justiça a "excelências" e "meritíssimos" é opressão indigna de subsistir num mundo digno de subsistir. 
Até que todas as relações humanas tenham rosto humano de novo.

Felicidade, sim!, como objetivo da sociedade! 
Economia, Desenvolvimento, Técnica, Poder... como meios
jamais como razão das nossas escolhas. Servos  
da felicidade de todos os seres.

O que é preciso... é cultivar nosso jardim (Voltaire)
Ser Humano e Natureza parceiros, mundo e vidas construídos como Arte. 
Dançar ao produzir... e dançar por dançar! 
Uma Ética nascida não de regras, mas da percepção do brilho nos olhos do outro. 
Humor, sempre – mas nunca sem Amor.

Mirantes em toda parte 
como investimento: afinal, sou do tamanho do que vejo, 
e não do tamanho da minha altura
(Fernando Pessoa). A cidade está produzindo multidões sem visão 
– e a solução não está em “líderes sábios”, pois podemos ser um povo inteiro de sábios. 
Visão e maravilhamento para todos!!!

A expressão

Fique de olho
no Beija-Flor!

foi usada como slogan da campanha, e
 junto com o selo (criado por Peu Pereira em trabalho conjunto com Ralf Rickli - ver acima) freqüentou todos os materiais e ações
 da Trópis por vários anos. 

Para essa escolha,
 além do encantamento óbvio causado
 pela visão de um beija-flor,
foi levado em conta seu papel
na cosmogonia guarani.

Não, não adianta disfarçar: jamais haverá encanto verdadeiro enquanto for privilégio de poucos.

Basta da falsidade do tal "princípio do proveito próprio" (Adam Smith)
com sua mãozinha tão invisível quanto vendida, que construiu o inferno atual. 
Somente a ação altruísta é verdadeiramente humana! 
E diferente do engano oitocentista que ainda nos sufoca, 
a colaboração foi sempre mais decisiva para a evolução que a competição.

ENCANTAMENTO PARA TODOS pode salvar você do tiroteio: muros e grades jamais.

Sabemos como. Balas não voam sozinhas: seres humanos apertam gatilhos 
– porque seu olhar só aprendeu a ver monstros e carros reluzentes.

Mas no meio do tiroteio colhemos flores – e plantamos. 
Contra a Cultura do Medo usamos a Magia da Verdade, e fazemos ver 
que nenhum ser humano é apenas monstro – nem dentro nem fora dos carros.

Ainda no meio do caos recuperamos o poder de encantar-se com estrelas, 
botões de flores, botões de gente.

Devolver às mentes as imagens seqüestradas do Bom, do Belo, do Justo, do Verdadeiro. 
Não, não é babaquice: ao cinismo tratamos com sua própria receita: mandamos embora, 
pois nunca nos deu nada que valesse a pena.

Que acima de tudo se devolva a cada Ser Humano o seu direito máximo: 
a chance verdadeira de desenvolver livremente seus potenciais.
Sobretudo, é claro, 
no nível do SER, porém sem negar a justíssima, enquanto modesta, importância do Ter.

ENCANTAMENTO PARA TODOS pode salvar você E SEUS FILHOS 
do tiroteio: muros e grades jamais.

Sabemos como. Mas é preciso que uma parte dos seus carros novos 
seja convertida em recursos para o REENCANTAMENTO DA EDUCAÇÃO DE TODOS.

Apóie este impulso e demonstraremos sua realização – no tempo que você quiser: 
um dia, dois anos, três décadas, uma civilização.

Começar a reencantar-se e a reencantar o Mundo: quem pode é VOCÊ.

 

 

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QUEM AVISA AMIGO É

carta aberta ao (ex)presidente que jogou fora a chance
de ser o primeiro estadista do 3.o Milênio

 

Este texto foi escrito e distribuído pela internet em 23.04.2000, domingo de Páscoa, sob o impacto dos acontecimentos do dia anterior.

Na foto acima, o índio Gildo Terena tenta parar as tropas de choque que atacaram a caravana de índios que tentava chegar ao local onde o Presidente da República do Brasil celebrava os 500 anos de 'descobrimento' com convidados estrangeiros.

Na foto abaixo, índios levantam símbolos cristãos e integram seu discurso aos ritos da Páscoa, em cerimônias paralelas às oficiais.

As duas fotos foram escaneadas
 diretamente de jornais na ocasião.

Começo por esclarecer que não sou ligado a nenhum partido, Sr. Presidente. Sou apenas um cidadão brasileiro de 43 anos, classe média, que gastou todos os seus (modestos) recursos dando aulas a jovens da periferia de São Paulo sem que ninguém lhe pague para isso, por paixão e fé no povo brasileiro.  

Dia 22 fui "sentir a multidão" no show de Caetano Veloso e Dulce Pontes. Acostumado a esses shows no Parque Ibirapuera, estranhei que houvesse tanta tensão no ar. Pessoas pareciam a um passo de brigar por qualquer coisa - e de fato alguma latas e garrafas plásticas voaram, além de gritos. Mesmo gostando da música, havia um mal-estar difuso pelos rostos. Era evidente que a maior parte das pessoas queria ver um show, mas não queria que pensassem que estavam comemorando os 500 anos. "Comemorar o quê?", foi a pergunta da semana, nos jornais e nas ruas.  

Sou dos que acham que era preciso, sim, comemorar de alguma forma. Mas seria estúpido dizer "a multidão está errada". Bem mais inteligente é tentar entender a razão dos seus sentimentos. O senhor, como sociólogo, entende essas coisas.  

Observei, então, que nos momentos em que a música era claramente afro-brasileira (no show e a