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TEXTO EM FORMA DE TRABALHO |
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BENDITO
EIXO NO BENDITO CAOS ou:em
busca de um critério um
capítulo do livro em preparação disponível
também em doc/zip em Ralf Rickli • rr@tropis.org COPYLEFT:
este texto pode ser reproduzido em parte ou no todo, desde que: 2.
O objetivo secreto de todos e o bendito caos
4.
Tentando não ser neurótico sem voltar para a caverna
5.
Nossa liberdade de baratas e a participação inevitável
6.
Critérios para o critério-dos-critérios
1. A esterilidade do excessoMeu
caro João, saiba que não estranho nem um pouco
seu ceticismo frente à minha última mensagem!
[1]
Você
andava folheando publicações recentes, e dizia não ver surgir nenhum
rumo novo, ou idéia que realmente possa fazer diferença, nesses eventos
que pretendem debater a situação atual do Brasil e do mundo. Eu
concordei, acrescentando que, no meu ver, isso se deve ao esgotamento das
possibilidades oferecidas por todos os quadros teóricos nos quais
as pessoas, percebendo ou não, continuam se baseando na hora de analisar
a realidade e de propor alguma coisa – não importa se ditos de
esquerda, direita, centro, libertários etc. Mas
eu disse mais: me atrevi a declarar que é nisso que me vejo
trabalhando: mais que na elaboração de propostas, na elaboração de um
novo sistema de referência para as propostas do futuro. E
aí... você nem precisaria ter insinuado que isso soa tremendamente
pretensioso: eu sou o primeiro a reconhecer! Só
que não por isso pretendo abrir mão do direito de tentar, de que
me considero detentor pelo mero fato de ser humano (e não me venha dizer
que suas dúvidas são justamente quanto a isso...) Mas você também disse o seguinte (quero
transcrever com destaque): “Não
acho que seja de um novo sistema que isso depende, pois hoje a quantidade
de sistemas em circulação já é tão grande, que o tempo de vida de uma
pessoa não basta nem para tomar conhecimento da existência de todos. O
seu sistema vai ser só mais um ruído nesse pandemônio. Nem percebido
vai ser! Muito menos conseguiria mudar alguma coisa...” Perfeito!
Concordo inteiramente com o seu diagnóstico da situação! Por isso o
sistema de referência que busco não pode ser meramente mais um: temos
realmente excesso de critérios em circulação, e nenhum critério para
lidar com tantos critérios – pelo menos nenhum com a clareza e consistência
necessárias. Retifico
portanto a caracterização do meu empreendimento, e você verá que a
pretensão é ainda maior do que já parecia: o objeto central não são
as propostas concretas, nem um sistema melhor entre os sistemas que dão
base a propostas concretas, e sim um sistema de referência para os
sistemas que dão base a propostas concretas. Ou:
não uma coisa, nem um critério para as coisas, mas um critério para os
critérios das coisas. 2. O objetivo secreto de todos e o bendito caosAgora
você me acusa de querer ser ditador... Impor o que pode ser dito e
pensado e o que não pode... Pois saiba que com isso você chegou
precisamente na razão principal do trabalho! Não,
não que você tenha descoberto o meu propósito secreto: ser
ditador do mundo... Na verdade você descobriu o propósito secreto de todo
ser humano: afinal, no fundo no fundo quem não gostaria de poder
impor que o mundo fosse do melhor jeito possível para si? E
justo com isso você tocou na razão que torna relevante a busca a que me
dedico, realmente necessária para a humanidade, e não um
passatempo intelectual qualquer. Pois
quando digo que há excesso de propostas por aí, o que menos me
preocupa é a ineficiência e confusão que esse excesso causa. O
que realmente me preocupa é que no meio dessa abundância existem idéias
que pretendem restringir a abundância; pontos-de-vista que apregoam que são
suficientes para tudo, e que portanto o bem está em excluir os outros
pontos-de-vista, em fazê-los desaparecer (pois se a idéia “x” é
totalmente certa e suficiente, outra idéia só pode ser erro e
descaminho). Me
refiro com isso a todo tipo de atitude dogmática, fundamentalista ou
totalitária, seja em forma religiosa, política, científica, o que for
– e você vê então que o sistema-dos-sistemas que busco poderia ser
qualquer coisa menos dogmático; ao contrário: o que busco
é um critério para nos defendermos de totalitarismos e dogmas que seja
simples e eficiente o bastante para
ter chance de conquistar o consenso da humanidade. Pois
o dogmático nunca se reconhece como opressor; geralmente nem
aceita a qualificação de dogmático! Ele se vê como um libertador, um
benfeitor da humanidade. Hitler
acreditava sinceramente que era um benfeitor, e também os
inquisidores que punham na fogueira quem tivesse dúvidas quanto à
virgindade da mãe de Jesus. Do mesmo modo os macarthistas que perseguiam
“comunistas” nos EUA, e os stalinistas que perseguiam “inimigos do
comunismo” do outro lado – sem falar dos médicos que mandavam amarrar
adolescentes com cordas para que não conseguissem tocar o sexo e extrair
disso prazeres que eles sinceramente acreditavam que fossem
mortalmente destrutivos para o corpo e para a psique. Por
isso, se hoje temos tantas alternativas diferentes para pensar a mesma
coisa que parecemos mergulhados no caos, só posso dizer: bendito caos!
Como sou grato por viver em meio a esse caos, e não com medo de ser preso
pelos representantes de uma ordem que se considera a única aceitável,
porque a mais perfeita possível! Esse
caos, afinal, também tem o
nome de liberdade. [2] 3. Deuses ou grãos de póDesta
vez recebo duas mensagens diferentes em resposta. O
João, a quem eu vinha respondendo, me diz que agora é que não entende
nada mesmo... Pois (diz ele), se eu gosto do caos, então bastaria não
intervir, não propor critério nenhum... Já
o Paulo diz que tem que ter alguma ordem “se não vira bagunça”, e
que liberdade só é aceitável se não for sinônimo de bagunça, pois
sem ordem nem chegaríamos a ter saído das cavernas. Meu primeiro pensamento é que essa mera
diversidade de reações ao que eu havia dito já é um exemplo de o
quanto nosso assunto é importante: o quanto está presente e entranhado
na vida cotidiana a ponto de pensarmos nele como “natural” ou “sem
importância” (“é assim, não é?”)... ... sem
notarmos que a maior parte dos problemas da humanidade se enraíza nisso:
no fato de que os seres humanos têm uma diversidade de modos-de-ser e
de reagir muito maior que a de qualquer animal, e de que ainda não
sabemos lidar com isso. A não-concordância do outro comigo (em qualquer
sentido) me desautoriza; mesmo se quase sempre de modo
subconsciente, a regra é sentir que essa não-concordância reduz o
controle sobre a vida que tento desesperadamente acreditar que tenho, e
que portanto a mera existência do outro como discordante me
rebaixasse como ser – do deus que eu tanto quero ser (ou seja: de
um Ser com controle sobre as circunstâncias) a somente mais
um bicho rosnando pelo mesmo osso, ou quem sabe dust in the wind, apenas
mais um grão de pó levado pelo vento. Que
fazer, se não tentar fazê-lo mudar imediatamente de jeito ou de opinião
para concordar comigo – submetê-lo, tornando-se assim não ameaça
e sim reforço à minha auto-estima e existência? E
se ele não muda – seja porque não quer (opinião, costumes) ou porque,
querendo ou não, é impossível mesmo (características físicas) –,
que fazer senão suprimi-lo? Fazê-lo desaparecer do meu horizonte? Simples,
não? Mas o pior é que ele é tão burro que não percebe que eu
é que sou “eu” e que ele é o outro, ele pensa em si mesmo como
“eu” e – absurdo dos absurdos – imagina que eu sou “o outro”!
E mais: suspeito que por esse engano ele se ache tão no direito quanto eu
de pôr em prática esse mesmo plano... E então... ... agora
é ver quem saca primeiro. Há diferença entre uma briga familiar ou de
vizinhos e os atos de um Hitler ou Stálin, quando vistos assim? De escala
certamente há, de natureza eu não vejo. Não
será então um assunto prioritário para a reflexão sistemática – ou filosofia
–, e sobretudo para uma que busque caminhos para o enfrentamento prático
da questão no cotidiano? 4. Tentando não ser neurótico sem voltar para a cavernaMas
quero voltar às mensagens de vocês, começando pela do Paulo, que me diz
quem sem ordem não teríamos nem saído das cavernas. Já
essa posição, Paulo, alguns chamariam de conservadora (porque ordem só
é ordem se tenta preservar-se, restringindo as possibilidades de mudança)
e outros de progressista (“porque foi a que nos permitiu progredir para
além das cavernas, dos oceanos, da gravidade terrestre...”) (Aliás,
filosoficamente poucas coisas podem ser tão bobas, tão ocas, como
definir sua própria posição como “progressista”! É óbvio que o
outro acha que o progressista é ele...) Rótulos à parte, essa preferência pela ordem
– a ponto de abrir mão da liberdade pelo risco de que ela signifique
“bagunça” – costuma ser a mais comum justamente no campo do chamado
senso-comum... ... mas
também Freud, o fundador da psicanálise, levou água para esse moinho,
com sua teoria de que a civilização só é possível graças à uma
perene repressão dos instintos. E enquanto essa posição é expressa
assim de modo geral, “no atacado”, também eu não tenho como
discordar. Mas
quando começamos a olhá-la essa posição mais de perto surgem
inevitavelmente diversas questões. É preciso alguma ordem? Sim. Mas
então: quê ordem? E definida por quem? Afinal, como eu já disse de diferentes modos nas
mensagens anteriores, quase todos acham que sabem o que é o bom e o certo
para todo mundo e, como acham que sabem, se consideram mais ou menos no
direito de exigir ou impor a realização desse certo – quando na
verdade nenhum ser humano sabe de fato o que é o bom e o certo
para todos! Quem
está apto, então, a definir qual é essa ordem? Um ou muitos? Se muitos,
quais? Escolhidos por quem e com quê critérios? Ou devem ser todos? Mas
de quê forma?... A
humanidade está longe de ter encontrado resposta satisfatória para
qualquer uma dessas perguntas, quanto mais a todas.[3]
Não é de estranhar, portanto, que a ordem social dificilmente seja
vivenciada como satisfatória pela maior parte dos indivíduos... ... pois
significa estarmos sempre submetidos a vontades de outros – mesmo
quando essas vontades alheias já foram assimiladas à nossa própria
psique, vivendo dentro dela como se fossem nossas porém em perene
conflito com nossos próprios desejos e instintos, ou seja: num permanente
estado de neurose. Freud
considerava inevitável que todo civilizado fosse um neurótico... porém,
ao contrário do que alguns pensam sem conhecê-lo de fato, não queria
destruir nem abalar a civilização; conformou-se com um “mal-estar da
civilização” contra o qual não haveria nada a fazer. Já Herbert Marcuse
retomou as mesmas idéias, porém acreditava ser possível
descobrir qual seria o mínimo indispensável de repressão, e descartar a
parte da repressão que é excessiva porque não realmente necessária à
civilização (a mais-repressão), aproximando-se assim de um balanço
ótimo (isto é: o melhor possível) entre as vontades do indivíduos e as
necessidades da sociedade que formam.[4] E
é aqui, na hora de pôr a repressão à prova, decidindo o que descartar
e o que justificar, que entramos dizendo “Sim, mas com que critérios?”
É
precisamente disso que estou falando. Repare, Paulo, que se estou em busca de um
critério, não posso estar defendendo a mera bagunça. Já estou
aceitando e defendendo que haja critérios – ou seja, que haja alguma
ordem, o que sempre significa algumas limitações. Apenas
aponto que é fundamental que haja um critério para os critérios, uma
ordem para as ordens, um limite claro e inequívoco para o próprio
impulso de limitar. É
fundamental perceber que quando digo “um critério dos critérios”, não
estou falando de “um critério melhor que os outros” (como quem
dissesse “este é o livro dos livros”), e sim de algo que se situe fora
do conjunto dos critérios ordinários, sem competição com eles,
atuando sobre todo o conjunto. Ou (usando essa forma bastante comum na
linguagem intelectual de hoje, que nunca deixa de parecer pedante porém
é realmente útil) um meta-critério. Posso
elencar mais algumas características necessárias para que um critério
seja capaz de desempenhar esse papel, porém antes quero responder ao João. 5. Nossa liberdade de baratas e a participação inevitávelO
que eu poderei dizer em resposta ao João, que me diz que se eu gosto do
caos bastaria não intervir, não propor critério nenhum? Acho
que pelo menos três coisas: A primeira é que a situação em que vivemos, em
todo o mundo, está longe de ser um verdadeiro caos... num sentido em que
possa significar a liberdade de cada pessoa. É de certa forma um
“caos” de ordens parciais e contraditórias, e de fragmentos de
ordens, e dentro de cada uma dessas ordens os indivíduos estão longe de
estarem realmente livres – ... sobretudo
se não falarmos meramente de liberdade de opinião e expressão, mas também
no agir ou fazer.[5] Tomemos apenas um de
uma infinidade de exemplos: quem, na sociedade, consegue ter garantida uma
sobrevivência decente fazendo realmente o que quer?
Certamente bem poucos – e desses (ao contrário do que muitos ainda
acreditam) quase nenhum como resultado de seu próprio esforço: nossa
estrutura social simplesmente não comporta “vagas” desse tipo em número
suficiente para todos os que já se esforçam por elas – quem dirá se
todos resolvessem se esforçar! É
sem dúvida melancólico, mas das liberdades que chegamos a ter, quase
nada é previsto ou garantido pelo sistema social total; a maior parte são
aproveitamentos das ineficiências do sistema, ou do encaixe imperfeito
entre suas partes ou sub-sistemas concorrentes: uma liberdade nas
frestas, como a de ratos e baratas.[6] Outro aspecto é que, como já disse nas
mensagens anteriores, não faltam pessoas achando que o caos-liberdade é
a raiz dos males que sofremos, e que esses podem ser solucionados pela
imposição de uma determinada ordem na qual elas põem fé, seja
por motivos racionais ou emocionais. A
observação e o bom-senso nos dizem que quase todas essas pessoas têm
razão em um ou em vários pontos – mas nunca nenhuma tem razão em
todos. Tanto
a lógica quanto a história evidenciam que sua imposição de ordem nunca
dá e nunca dará conta de todas as questões, ao mesmo tempo em que
sufoca as outras possíveis fontes de respostas. Independente de as
intenções serem espúrias ou justas, o saldo final dessas imposições
termina sendo sempre negativo. Ou seja, nos vemos num impasse: -
não podemos aceitar que alguma pessoa ou grupo imponha o sistema
em que acredita, ou seja: ceder-lhe o poder de suprimir todas as outras
possibilidades de solução... -
mas também não podemos simplesmente tentar suprimir o impulso que
as pessoas têm de consertar o mundo colocando alguma ordem – pois isso
já seria a mesma coisa: a imposição de uma ordem para consertar o
mundo! Então
eu pergunto a você: precisamos ou não de algum critério para distinguir
o
que se pode-ou-deve ordenar (ou deixar ordenar) e E aqui a expressão “deixar ordenar” nos
chama atenção para um terceiro aspecto: o fato de que não existe um
verdadeiro “não fazer nada”: não puxar para nenhuma direção
equivale a puxar para o lado em que as coisas já estão indo. Não
tentar intervir é compactuar com o que já está acontecendo, de modo
que não intervir também é intervir.[7] De
qualquer um dos seguintes quatro modos: por
agir
- para mudar as coisas
- para manter as coisas como estão por
não agir e, com isso, deixar que outros
- mudem as coisas como quiserem
- mantenham as coisas como estão você
tem parte, queira ou não, em as coisas serem como são e – mais ainda
– em se tornarem o que se tornarão. É co-autor e co-responsável. A esta altura você, sabendo que é um dos
responsáveis, também não começar a clamar desesperadamente por um critério
seguro e simples para o seu (não) agir? 6. Critérios para o critério-dos-critériosSei
que não é pouco o que estou pedindo do critério almejado... Uma
proposta apressada teria toda chance de não atingir a qualidade necessária,
e terminar fazendo mais mal do que bem (no mínimo por servir de argumento
a quem prefira um vale-tudo cínico). Não
é nenhuma perda de tempo, portanto, refletir um pouco sobre quê
qualidades poderiam capacitar nosso critério a desempenhar suas
desmedidamente elevadas funções. Por isso peço a vocês a paciência de
enfrentarem esta mais longa e analítica das mensagens até agora: sem ela
não for lida agora, o assunto acabará pipocando mais à frente de
qualquer jeito... Sem
descartar que haja outras igualmente desejáveis, quero me ater agora às
qualidades ou grupos de qualidades que já identifiquei, que são as
seguintes, tão coesas e solidárias entre si que vocês podem ter a
impressão de que estou repetindo a mesma várias vezes – mas olhem bem
e verão que são como setores diferentes da mesma esfera. 1)
Transcendência É
o que foi dito no final de 1.4: não pode ser apenas “um critério
melhor que os outros”, mas ainda de tal natureza que pudesse sofrer
competição desses outros; deve ser algo que por sua própria natureza
lógica se situe fora do conjunto dos critérios ordinários,
sem competição com eles, atuando sobre todo o conjunto (a qualidade do
“meta-” na expressão “meta-critério”). É
importante perceber que essa sobreposição de camadas de critérios não
torna o sistema mais fechado ou opressivo: como a atuação de um critério
é negativa (a de restrição, limitação, desbaste), um critério
atuando sobre critérios é um desafogo –pois quando limitações
crescem, diminui a liberdade, porém se crescer a limitação das
limitações, a liberdade aumentará. 2)
Eficiência e simplicidade Nosso
critério deveria ter a capacidade de gerar grandes resultados com
interferências muito pequenas na realidade – na verdade as menores possíveis
–, sendo ainda descomplicado na hora da aplicação. A
principal razão para a simplicidade é que só assim ele terá alguma
chance de conquistar a adesão de pessoas em escala suficiente para se
integrar à cultura geral da humanidade até o nível do cotidiano. Um
critério cuja aplicação ou implantação dependa de grandes esforços
ou da participação de especialistas dificilmente alcançaria o nível de
difusão necessário. Uma
outra das implicações da simplicidade será vista no próximo ponto. 3)
Ideal de unicidade e abrangência (universalidade) Poderíamos
dizer também “o ideal do Um”: - simples
significa originalmente feito de uma parte só ou interiormente
uno; - ser
único é ser um só exteriormente, não ser parte de um conjunto
de muitos; - abrangência
é praticamente apenas outro nome para unicidade, se esta é autêntica:
se um princípio é realmente único, abrange tudo; se não abrange
é porque é falsamente único: é parte de um conjunto de dois ou mais,
no qual as outras partes ou são desconhecidas ou estão sendo escondidas. Isso
parece contraditório com o que eu disse anteriormente – que nunca haverá
sistema único que dê conta de tudo – porém é preciso lembrar que
aqui não estamos falando de um critério entre os outros e sim de um
meta-critério (ver acima a qualidade da transcendência). Tudo
mais é complexo (internamente múltiplo), tudo mais é numericamente múltiplo...
Se houver um único princípio simples e único, ele será diferente de
tudo mais, e será de outra ordem (transcendente) já por isso. Se
houvesse dois, esses seriam apenas mais dois dentro da multiplicidade
geral; não transcenderiam – e assim não cumpririam seu papel. Um
do objetivos da simplicidade é portanto afastar tanto quanto possível a
possibilidade de divergências de interpretação, as quais obrigariam a
recorrer a algum princípio fora do próprio critério – seja uma
teoria, seja o arbítrio de pessoas –, uma possibilidade que idealmente
nem deveria existir: nosso meta-critério deveria ser o critério simples
e único de todos os critérios. Porém ainda é fundamental entender que estas
qualidades (unicidade, simplicidade, abrangência) precisam comparecer
como ideal, ou seja: como horizonte a buscar: nossas formulações
serão tanto melhores quanto mais se aproximarem da unicidade e
simplicidade. Como
em todos os demais campos, as contingências da realidade e as próprias
limitações da linguagem humana impedem que qualquer coisa expressa ou
manifesta seja precisamente a ideal (ou, nos termos da filosofia
chinesa, “o tao”): será sempre uma tentativa, uma aproximação. Este
reconhecimento é por um lado uma forma de realismo prático, por outro
lado mais uma caracterização da transcendência do princípio que
buscamos.[8] Este
aspecto faz com que na prática talvez tenhamos que nos contentar com um pequeno
número de normas em que ainda se possa perceber que são expressão
de um só princípio – fazendo sempre o esforço de que seu número seja
o menor possível. Por
isso eu poderia também falar de “minimidade”, em lugar de
“unicidade” – porém para designar um ideal esta última
palavra é melhor: vai até o limite (e é mais abrangente e mais
simples... ) E a idéia de “mínimo” ainda estará presente na
caracterização do método e atitude de trabalho que proponho como
“minimalistas”, como vocês verão mais à frente. 4)
Naturalidade e auto-evidência. Tanto
quanto possível, nosso critério não deveria ser inventado e imposto à
realidade por convenção, mas deve ser a aplicação de algum princípio
já implícito inevitavelmente na natureza das coisas – ou seja: com o
caráter de um teorema. Teoremas
(p.ex. o fato de não haver círculo cuja circunferência dividida pelo diâmetro
não resulte sempre no mesmo número, o conhecido por pi) não são
inventados e sim descobertos: precisamos apenas nos dar conta de
que existem, e aí passarmos a investigar as suas propriedades e possíveis
aplicações. Sua verdade é totalmente independente de opiniões e de
condicionantes culturais (ainda que o modo de expressá-lo não o
seja). Sei
que às vezes parece inverossímil que tais propriedades da realidade, de
tamanha elegância e simetria, não sejam invenção humana. Por exemplo,
acho absolutamente espantoso que três agrupamentos de quatro contenham o
mesmo número de unidades que quatro agrupamentos de três (3x4 = 4x3)! Repito:
as linguagens em que o expressamos são produtos culturais – por
exemplo: dizer essa mesma coisa com as conhecidas palavras “a ordem dos
fatores não altera o produto”, ou o uso dos sinal “x” para
“vezes” – porém o fato em si não é: ninguém o propôs,
ninguém decidiu que seja assim, simplesmente é – e não há
ninguém a quem possamos acusar de autoritário por ser assim... Podemos
ainda tentar demonstrar de diferentes modos por que é que 3x4 = 4x3, ou
até termos opiniões divergentes sobre se o fato é importante ou não, mas
seria ridículo tentar dizer que não é verdade ou que (por exemplo)
trata-se de uma crença imposta por uma classe social. Para
nós o interesse disso é a possibilidade de ancorar-se em alguma coisa
que esteja natural e inevitavelmente (ou seja: não autoritariamente ou
por imposição) além da possibilidade de disputas de opinião. A significação desta última qualidade só se
evidencia por inteiro mediante um contraste que pode parecer chocante: a
constatação de que a afirmação fundamental da Declaração Universal
dos Direitos Humanos (“todos os seres humanos são livres e iguais em
direitos etc...”) é absolutamente arbitrária. Não
estou dizendo que não seja boa: é
excelente, porém é integralmente uma escolha, uma opção humana. Carece
da qualidade de naturalidade e auto-evidência de que estou falando.
Talvez por isso, apesar de ser uma opção da mais alta nobreza ética, não
tenha alcançado até hoje a força e a universalidade desejadas: por não
se haver buscado uma fundamentação lógica que encontre uma continuidade
entre o mundo da cultura humana e o que lhe vem antes: a natureza das
coisas em geral. Entre
outras conseqüências, se a dignidade humana só puder ser afirmada
mediante a instituição de uma ordem exclusivamente humana totalmente à
parte do resto do universo – ou seja, por uma ruptura ou desligamento da
humanidade frente ao resto –, não é de estranhar que seja olhada com
suspeita tanto pelos ecologistas quanto pelas re-ligiões, que, pelo menos
em tese, tratam das re-ligações universais. Edgar
Morin parece ter percebido
isso, pois no seu recente O Método 6 - Ética inclui um capítulo
(“Retorno às fontes cósmicas”) onde busca encontrar uma tal
fundamentação cosmológica para a ética humana. No meu ver sua
tentativa chegou perto, mas ainda deixou a desejar – mas é só mais à
frente que vou poder explicar o que acho que faltou.[9] O
princípio proposto deve ser enunciado em um capítulo subseqüente Esperamos
colocar o trabalho inteiro à disposição até setembro de
2007 [1] Embora alguns dos pontos a seguir tenham aparecido em algumas trocas de mensagens reais com amigos, trata-se aqui de um recurso puramente ficcional; tanto as mensagens do meu amigo referidas quanto as minhas anteriores são imaginárias, mero recurso para auxiliar a exposição. [2] É justamente à manifestação desse caos no universo das teorias que se refere a que me parece ser a idéia mais importante das filosofias da pós-modernidade: a idéia da “falência das grandes narrativas”, proposta por Jean-François Lyotard. Voltaremos a isso no Capítulo [***]. [3] Perguntas, aliás, cuja discussão deveria ser o ponto de partida de qualquer Ciência Política decente, em lugar de, como é usual, começar falando de Maquiavel – o que é tomar algumas das respostas que foram dadas historicamente como se fossem um fato tão natural e sem alternativas como o de ninguém ser humano sem ter um cérebro. [4] Vários outros autores buscaram desvincular as contribuições principais de Freud desse seu lado conservador, explorando seu potencial socialmente revolucionário. O mais conhecido é provavelmente Wilhelm Reich. Ver na Bibliografia Geral, além de Reich e Marcuse, as obras de Doria (Marcuse, vida e obra) e Robinson (A esquerda freudiana). [5] Não me parece filosoficamente justificável começar admitindo que a idéia de liberdade só seja legítima no campo do pensar, e não no do agir “exterior”. Rudolf Steiner chega a isso, ou bem perto disso, em sua obra Filosofia da Liberdade (GA 004) – porém precisamente isso: chega lá, depois de dezenas de árduas páginas. Neste momento não é minha intenção concordar nem discordar das suas conclusões – nem das de nenhum outro pensador; minha tentativa é como a de quem se aventura por um determinado território sem levar mapas (resultados de aventuras de outros no passado), na esperança de perceber novos aspectos e possibilidades desse território a partir de suas próprias habilidades de observação das coisas desde as mais elementares. A noção do que seja liberdade me parece ser tão espontânea no ser humano como a distinção entre sentir-se bem alimentado ou com fome. Sem pretender com isso restringir o campo das possíveis vivências e compreensões da liberdade, acho importante não perder de vista esse seu aspecto elementar, que uma etimologia perscrutadora ajuda a desnudar: “livre” (latim líber) é simplesmente “gostador”, “queredor”, o que tem desejo próprio (latim líbitum, libído – relacionados à palavra germânica para amor: o alemão Liebe, o inglês love) – e isso menos no sentido moralmente valorizado no Ocidente de “força de vontade” (palavra ligada ao latim volúntas, alemão Wille, wollen) e sim no mais cru de “gostar ou não gostar”, “sentir agrado ou não sentir”. A propósito, no recente filme sobre a vida de Lutero (2004 ou 2005), menciona-se a sua observação de que em alemão “vontade” tende a soar como “autoridade impositiva”, enquanto nas línguas originais da Bíblia, inclusive quando se refere a Deus, a idéia é mais próxima da de “desejo amoroso” ou – pedindo licença de realmente traduzi-lo à linguagem do povo de que faço parte: “tesão”. Voltando à palavra liberdade, tenho a impressão de que todas as vezes que se busca desqualificar esse nível mais elementar como parte legítima de seu campo de significação estamos em presença de uma tentativa de manipulação em proveito de uma ou outra instância de dominação. [6] Muitas vezes uma liberdade é prevista pelo sistema político formal (p.ex. a Constituição) porém negada pelo sistema econômico, ou também por padrões culturais herdados; por isso falamos de “sistema social total”. Quanto aos poucos que conseguem viver fazendo realmente o que querem, são geralmente filhos de quem se esforçou e soube ainda capitalizar em seu patrimônio pessoal-familiar os esforços de muita gente mais. O esforço puro raras vezes chega lá, e o eticamente inquestionável talvez nunca. Mas de nenhum modo estamos dizendo que essa é “a natureza das coisas”: é a natureza da ordem social vigente, que é uma criação de seres humanos. [7] Estamos aqui em presença de uma coincidentia oppositorum (coincidência dos opostos), expressão do nosso “herói intelectual” Nicolau de Cusa (1400-1464). Numa seqüência de raciocínio, isso quase sempre é sinal de que se acaba de ultrapassar uma determinada camada de aparências (que não por serem aparências deixam de constituir uma realidade, tanto que uma palavra de origem grega para tais “aparências” é “fenômenos”) e penetrar em um nível mais elementar ou essencial das coisas. – Apesar de nosso entusiasmo e afinidade, ainda não tivemos a oportunidade de trabalhar diretamente com os textos de Nicolau de Cusa (Nikolaus von Kues, Nicolaus Cusanus), disponíveis hoje em edição bilíngüe latim-alemão. Nosso contato foi sobretudo via Koyré (1979), Steiner (GA 007) e Yockey (1993). [8] Sei que esta distinção entre plano ideal e realidade manifesta pode provocar questionamentos – porém sua discussão precisa ser deixada para outra ocasião, senão nem deixará lugar para o assunto principal! De qualquer modo, nosso “idealismo” aqui não é necessariamente maior do que o de qualquer engenheiro que usa o “tende a”, ou seja: a idéia de limite em seu sentido matemático. [9] Exponho detalhadamente minha divergência com Morin neste ponto no capítulo 3.5 do artigo O fantasma de Aristóteles, presente no volume Pedagogia do Convívio: na invenção de um viver humano e disponível igualmente em www.tropis.org/biblioteca. Esta afirmação não significa fazer pouco do trabalho de Edgar Morin, que, pelo menos entre os autores que eu conheço, é sem dúvida quem mais avançou na direção em que aposto como prioritária para a humanidade hoje. Muitas vezes a identidade do realizado por Morin e o que eu vinha tentando é tão grande que, uma vez lidas suas palavras, fica difícil distinguir a parte que eu havia construído por mim mesmo do que foi acrescentado pela leitura de Morin. Isso talvez se deva justamente a seu trabalho consistir menos de propostas pessoais que da busca, descoberta e explicitação dos teoremas naturais de que estou falando. |