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DIVERSIDADE, CONVIVIALISMO E EDUCAÇÃO

Ralf Rickli

28.06.2008

ÍNDICE

Da seção 2: O CERNE DA PROPOSTA

  2.2. O conceito de Convívio e seus campos de aplicação

Da seção 3: GRUPOCENTRISMO E DISCRIMINAÇÕES:
o pensamento convivial aplicado a algumas questões práticas (sobretudo de interesse pedagógico)

  3.1. O retorno do reprimido: 
          violência reativa, perversão sexual etc.

  3.2. Etnocentrismo, grupocentismo

  3.3. Religião, fé e propaganda

  3.4. Diversidade sexual

    3.4.1. Um pouco de terminologia

    3.4.2. A homofobia como questão pedagógica

    3.4.3. A presença estatística além das primeiras aparências

    3.4.4. A possibilidade real de uma sociedade não-discriminadora

    3.4.5. Duas palavras sobre diversidade sexual e religião

  3.5. Quantos preconceitos se pode tolerar?

Uma seleção de trechos do artigo

LIBERDADE SOCIALMENTE SUSTENTÁVEL
uma introdução à filosofia do convívio 
e a algumas de suas aplicações

publicado em 01.06.2008

a íntegra do artigo pode ser baixada em .DOC  ou .DOC/.ZIP a partir de
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Da seção 2: O CERNE DA PROPOSTA

2.2. O conceito de Convívio e seus campos de aplicação

Dentro deste conjunto de concepções, a palavra convívio pode ser entendida, em uma expressão mais simples, como “vivermos bem na presença uns dos outros sem termos que perder nossas diferenças”.

Observe-se aí a palavra “bem”: viver mal nem é propriamente viver, não passa de sobreviver – e não é por uma mera “consobrevivência” que estamos trabalhando!

De um modo um tanto mais técnico, também podemos dizer que convívio é, em um sistema, a condição em que é ótima (isto é: a melhor possível) a relação entre cada ser, cada um dos outros seres e o todo do sistema.

O mais importante, porém, não é guardar definições em palavras, e sim entender que o conceito de “convívio” é absolutamente diferente do de “união”: não implica em nenhum atrelamento, nem em abrir mão das nossas diferenças. Para que haja convívio não é sequer necessário que haja concordância – a não ser a concordância quanto a respeitarmos reciprocamente os espaços pessoais e jeitos-de-ser uns dos outros.

Isso não significa que num estado de convívio não haja interação – muito pelo contrário: é no convívio, e não na união, que as interações podem chegar ao seu máximo de vivacidade e vitalidade, pois cada um tem o espaço e o direito de expandir suas múltiplas possibilidades, e as interações se constituem em articulações dinâmicas, que ligam sem restringir o movimento de cada uma das partes.

Portanto: as únicas coisas que tenho que fazer pela unidade e integridade do todo são não atentar contra o diferente – e colaborar, sempre pelo meio mais brando que ainda seja efetivo, no sentido de que ninguém atente. Em outras palavras: empenhar-me para garantir a pluralidade e a diversidade.

De que isso tudo forme “um”, o próprio todo cuida; o universo inteiro testemunha o tempo todo de que ele é perito nisso.

Toda tentativa que eu, que sou apenas uma parte, fizer no sentido de unificar só irá aumentar a divisão, já que não estou em posição hierárquica para isso. Sou apenas, sempre, mais um irmão, nunca um pai.

E seria até cômico, se não fosse trágico, como cada um de nós irmãos é tentado o tempo todo a colocar-se como o representante mais adequado da autoridade do papai perante os outros irmãos...

Algumas frases de caráter aforismático podem ajudar a sintetizar essas idéias:

  Não existe unidade senão na diversidade.

  Só a pluralidade nos une.

  Ligados em solidariedade por recusarmos vínculos artificiais,
iguais por sermos todos diferentes,
é apenas sendo muitos e diversos, e cada um livre por si,
que formaremos Unidades benéficas e capazes de durar.

Além disso, é importante notar que o conceito de convívio se aplica a outros campos além do que essa palavra costuma nos evocar de imediato, que é o inter-humano. Nomeando:

intra-humano ou psicológico:
  entre as diferentes forças interiores da nossa psique,
  os diferentes traços constituintes de nossa personalidade etc.

inter-humano: social, cultural, econômico, político;
  entre seres humanos, individual ou grupalmente,
nas escalas:
   - micro (ex.: casal, família, amigos)
   - meso (ex.: organizações, cidades até certo porte) e
   - macro (ex.: grandes cidades, países, o planeta)

inter-específico ou ecológico:
  entre seres humanos e os demais seres da Terra

cosmológico (físico, filosófico, teológico) - ver adiante

Até este ponto, este artigo tratou quase integralmente do convívio inter-humano. O convívio ecológico é abordado nas seções 2.3.6 e 2.4 (4), logo adiante.

Cabem aqui, portanto, algumas palavras sobre o convívio intra-humano ou psicológico: assim como o corpo, também a psique humana é complexa, constituída de muitas partes que têm necessidades tão diferentes quanto são diferentes, digamos, as necessidades do intestino, as do cabelo e as do cérebro. Essas diferentes partes também têm, portanto, diferentes vontades, que nem sempre é fácil harmonizar.

Além disso, sabemos hoje que nossa consciência, apesar de ser o fenômeno fabulosamente misterioso e poderoso que é – e de ser não menos que a base a partir da qual faz sentido falar em liberdade – conhece muito pouco do psiquismo dentro do qual vive. O campo inconsciente e subconsciente não inclui apenas conteúdos que foram expulsos da consciência e reprimidos, como pensava Sigmund Freud, mas também conteúdos ligados aos processos corporais (ver p.ex. os recentes trabalhos do neurologista António Damásio), as estruturas de funcionamento instintivas preservadas de fases anteriores da evolução biológica (como se vê na teoria do inconsciente coletivo, de C.G. Jung, ou na do cérebro triúnico de Paul MacLean) – e provavelmente ainda mais.

Há portanto vastas áreas dentro de nós que tomam decisões sem o conhecimento da nossa consciência – inclusive decisões mais sábias que as que a consciência saberia tomar, mas que não deixam de ser negações ou pelo menos insuficiências da nossa liberdade enquanto a consciência não as conhecer.

Um dos aspectos mais significativos do convívio interior é, portanto, que a consciência possa crescer ganhando conhecimento de mais e mais setores do nosso inconsciente, não para substituí-los ou para suprimi-los, mas dispondo-se a aprender deles mediante o convívio.

Um exemplo: em áreas tão diversas quanto as Artes do Corpo, a fisioterapia, e a vida sexual, o bom desempenho depende fundamentalmente do aprendizado da consciência com a ancestral sabedoria do corpo – a qual não deixa de ser parte do psiquismo pelo fato de estar vinculada à musculatura ou a outros órgãos fora da cabeça.[1]

Um pouco mais sobre o convívio psicológico será dito no capítulo 3.2, enquanto que sobre o convívio cosmológico estão reservadas algumas palavras para o encerramento do artigo (seção 4).



[1] Sobre esta área é interessante acompanhar as descobertas recentes da investigação neurológica (o que pode ser feito, entre outros caminhos, através de revistas sérias como Mente & Cérebro), mas também as investigações de autores do século XX como Alexander Lowen ou Moshe Feldenkreis, sem falar do próprio Wilhelm Reich. Também a tradição oriental da ioga tem muito a ensinar neste sentido.

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Da seção 3: GRUPOCENTRISMO E DISCRIMINAÇÕES:
o pensamento convivial aplicado a algumas questões práticas (sobretudo de interesse pedagógico)

3.1. O retorno do reprimido:
violência reativa, perversão sexual etc.

Estendida para todos os campos da realidade (cf. 2.2), a noção de convívio nos permite adotar a perspectiva de que há uma posição apropriada para tudo o que existe – ou seja: de que nenhum ser é intrinsecamente mau; torna-se destrutivo quando está em lugar inapropriado; e geralmente está em lugar inapropriado porque foi forçado a isso. – Um exemplo: há organismos que podem causar doenças terríveis se introduzidos em um corpo humano vivo, mas que são necessários e utilíssimos no processo de transformação dos corpos já mortos.

Tanto no campo intra-humano (psicológico) quanto no inter-humano (social), e pelo menos em certa medida até nas relações com a natureza (campo ecológico), terminaremos por descobrir que as tentativas de reprimir e/ou suprimir algum elemento são não apenas inúteis, como efetivamente nocivas:

... o que foi reprimido internamente acaba eclodindo aqui ou ali em forma de patologia (doença) psíquica, física ou ambas;

... o que foi reprimido no campo social acaba emergindo em forma de violência visível.

Esta expressão “violência visível” se deve ao fato de que há violências invisíveis que precedem praticamente toda violência que chegamos a perceber. Praticamente toda violência visível é reativa – surge em reação a estados de opressão (repressão, tentativas de supressão) a que o ser que vemos como violento foi submetido antes.

A violência invisível geralmente o é porque já nascemos em meio a ela, e crescemos tendo a impressão de que aquela é a ordem natural das coisas. Não nos perguntamos, p.ex., por quantas horas e em que condições a pessoa que dirige o nosso ônibus está trabalhando: é como se o ônibus andasse por ser ônibus, não por estar sendo dirigido por um ser humano, e “motorista” fosse apenas umas das peças do ser-ônibus.

Também não vemos que muros e grades, muito mais que defesa contra a violência, são eles mesmos gestos de violência materializados. A violência contra a qual eles nos defendem não é primária, já é reativa: a violência primária em questão é a que está materializada no próprio muro: a de impedir que a maior parte da população desfrute de benefícios que foram gerados com a sua participação – tanto na hora de produzir quanto na de comprar. (A boa compreensão deste ponto pode depender de que se adquiram conhecimentos sobre os mecanismos de acumulação de capital e sobre a força psico-social a que se dá o nome de ideologia).

No campo psicológico, um exemplo gritante de “retorno do reprimido” é o que vemos nas perversões sexuais –

... e aqui é preciso esclarecer antes de mais nada diferença entre perversão e variação do impulso sexual. Por bizarros que possam parecer, atos realizados com consentimento mútuo e que não levam a danos efetivos a nenhuma das partes não são perversões, e sim variações. Só cabe falar de perversão lá onde o impulso sexual, que é um impulso de encontro e de interação com proveito mútuo, se deforma e se manifesta como violência – ou seja: como ato de opressão. (Naturalmente existe a violência contra o outro e a contra si mesmo, mas esta última é uma questão complexa na qual não queremos entrar no momento).

Também aqui descobriremos que a violência visível da perversão surge como reação à violência invisível anterior que foi a repressão do impulso sexual de um modo ou de outro. É totalmente enganosa a concepção de que existem perversões porque existe excesso de liberdade (“libertinagem”, “licenciosidade”): existe perversão lá onde o impulso sexual, em si saudável, se viu bloqueado de um modo ou de outro, e terminou buscando uma saída a qualquer custo.

Tal processo geral poderia ser analisado em detalhe nos mais diversos exemplos; não é possível fazê-lo agora,[1] mas pode ser útil a compreensão mencionar o seguinte fato: é bastante freqüente que pessoas integrantes de outras culturas (indígenas ou africanas, por exemplo) não entendam por que nós rimos de determinadas piadas; olhando com atenção, vemos que de fato não há nada cômico no que foi contado: o riso procede apenas de que se tenha aludido a coisas de que não se deveria falar. Para o integrante de uma cultura que encara aqueles mesmos fatos com naturalidade, e não como proibidos, não há neles nenhuma transgressão, e portanto nenhum motivo de riso.

Nem de violência.

Sumarizando e concluindo este ponto: haveria portanto não que tentar suprimir, e sim que encontrar o lugar e a dinâmica de relacionamento que permita a cada elemento da psique e a cada ser humano (não quero chamar a nenhum ser humano de “elemento”) existir sem ser nocivo.

E para isso é preciso antes de mais nada que tais elementos e seres humanos deixem de ser vítimas da violência invisível que é a tentativa de supressão.

Evidentemente para além destas linhas gerais este é um assunto cheio de complexidades que exigiriam livros inteiros – por exemplo: o que fazer com os seres que já foram tornados irremediavelmente violentos pelas violências anteriores a que foram submetidos? Mas é começando pelas linhas gerais que se apreende melhor um assunto.



[1] Baste no momento um exemplo: há alguns anos foi preso em São Paulo um jovem aparentemente saudável que se envolvia com garotas e depois de algum tempo as levava a passear fora da cidade. Aí tinha relações sexuais com a garota e em seguida a assassinava e enterrava no mesmo local. Facilmente se dirá tratar-se de um psicopata, uma pessoa incapaz de vivenciar sentimentos de culpa; o mais provável, porém, é que se trate precisamente do contrário: é provável que elementos de repressão em sua infância (provavelmente totalmente suprimidos da memória consciente, mas ainda assim atuantes) gerem uma brutal sensação de culpa por haver obtido satisfação sexual, ou quem sabe meramente por haver exposto o corpo – culpa essa tão insuportável que o único e precário alívio parece ser a eliminação da testemunha. E aposto fortemente que a maior parte dos casos de assassinato em seguida a um contato sexual (consentido ou não) têm esse tipo de raiz.

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3.2. Etnocentrismo, grupocentrismo

Etnocentrismo é a tendência que temos de considerar os valores e os usos do grupo em que fomos criados como sendo “os normais”, ou o padrão em relação ao qual todos os outros seriam desvios ou variações. Talvez o exemplo mais óbvio seja o do sotaque: não é incomum que paulistas pensem que existe sotaque gaúcho, sotaque carioca, sotaque nordestino, etc., mas não o sotaque paulista – o qual soa gritante e reconhecível para os ouvidos de um gaúcho, um nordestino, etc.

Prefiro a palavra “grupocentrismo”, apesar de não dicionarizada, pois “etnocentrismo” pode nos fazer pensar, enganosamente, que se trate apenas de uma questão entre povos claramente diferenciados – quando qualquer estranhamento entre diferentes “tchurmas” em uma escola já é parte do mesmo fenômeno.

É possível que o grupocentrismo seja o obstáculo mais forte no caminho do convívio universal – de onde vem a pergunta: o que poderíamos fazer contra ele no nível da educação? Como estruturar o processo de educação de modo que ele não apenas deixe de reforçar os grupocentrismos, mas atue ativamente na desmontagem da tendência geral ao grupocentrismo?

Não se trata de uma questão fácil, pois estamos lidando aí com estruturas profundamente arraigadas no inconsciente.

Cabe observar ainda que não se trata de pôr abaixo as características dos grupos – mas apenas de deixar de tomá-las como motivo de separação ou mesmo de inimizade.

Pois, afinal, se puséssemos abaixo os valores de um determinado grupo, que valores poríamos no lugar? Apenas “valores humanos universais”?

Ora, a humanidade é muito vasta – e não há como viver apenas com os poucos valores que são comuns a toda ela. O universal é a soma de todos os locais, com suas diferenças, e não a supressão das diferenças locais. Mas também não teríamos como funcionar carregando em cada um de nós os valores de todas as culturas ao mesmo tempo...

De modo que, no fim das contas, universal mesmo é o convívio.

De qualquer modo, é fundamental substituir todos os “centrismos” por um centrismo só: um “pan-centrismo”, em que tudo está no centro – ou, pelo menos: em que qualquer ponto pode ser tomado como o centro a qualquer momento, para determinado fim, sem esquecer que todos os outros pontos também podem ser tomados como o centro a qualquer momento.

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3.3. Religião, fé e propaganda

Talvez este seja o ponto mais delicado para uma Filosofia do Convívio – pois praticamente todas as religiões se vêem como guardiãs de uma verdade absoluta, enquanto para o convívio precisamos tomar todas as verdades como relativas (o que é a essência do capítulo 2.1 deste artigo).

Não se trata aqui de negar que alguma verdade possa ser absoluta – e é importante enfatizar isto –, mas de afirmar que não tenho o direito de exigir que outro adote o meu julgamento quanto ao que é absoluto, o que não é: tenho minhas razões e minhas intuições quanto a isso – e ele tem as dele.

As religiões propõem respostas a questões que a experiência comum e a ciência não respondem. É freqüente a opinião bem-intencionada de que por trás das diferentes religiões esteja um mesmo objetivo, ou que todas elas sejam diferentes formas de buscar um mesmo absoluto – mas infelizmente essa opinião não corresponde à realidade dos fatos: cada religião representa uma aposta diferente quanto a como-é e onde-está o absoluto. E o fato é que não há como verificar a correção de nenhuma dessas diferentes apostas – pois elas se referem justamente aos campos sobre os quais nem a experiência comum nem a ciência têm como dar palavra definitiva.[1]

Rubem Alves, trançando fios procedentes de filósofos como Soren Kierkegaard, Paul Tillich e Paul Ricoeur, escreve alguns parágrafos belíssimos sobre a relação entre fé e dúvida cuja transcrição literal seria excessiva, mas cujo conteúdo podemos tentar reportar assim:[2] fé não é o contrário da dúvida; fé e dúvida se pertencem; só faz sentido falar de fé lá onde não podemos ver, lá onde as certezas do conhecimento são impossíveis. Mas não podemos viver paralisados pela incerteza; a fé é então uma aposta, o ato de coragem existencial com que se rompe a paralisia diante da incerteza. Isso não quer dizer que os riscos desapareçam: onde não existe risco não há necessidade de fé. Em suma: a fé é aquele ato com que, justamente onde não se pode saber o caminho com certeza, nosso coração diz: eu aposto que é por aqui.

Creio que esta atitude preserva o profundo respeito pela fé como necessidade do ser humano saudável (necessidade psicológica, antropológica), e não como mero “desaperto dos fracos”, como pensam alguns – e ao mesmo tempo define os campos de tal modo que possa ser preservado o relativismo necessário ao convívio: fé é uma aposta no absoluto – mas é a aposta pessoal de cada um de nós.

Se quero, portanto, que seja preservado o meu direito de fazer a aposta que minha mente ou meu coração me indicam como a mais correta, preciso respeitar que cada outro também tenha o direito de fazer sua própria aposta.

Posso expor ao outro a minha fé – e deixar que ele escolha fazer a mesma aposta, ou não. Impô-la, jamais. E na verdade, nem mesmo tentar persuadi-lo: posso lhe expor as razões que me levam à minha aposta. O passo seguinte, a persuasão, já é uma forma de violência – que definimos sempre como a invasão do espaço decisório do outro.

A propósito disso, cabe lembrar ainda que a violência da persuasão é exercida sobre nós todos os dias pela propaganda. Com isso, tal violência se tornou usual – mas não por isso aceitável ou justificada! Se realmente quisermos que se desenvolva na Terra um convívio humano saudável e não violento, teremos mais cedo ou mais tarde que eliminar essa forma de violência que é toda propaganda que vai além de expor, mas tenta persuadir ou convencer.



[1] Pretendo incluir no livro Filosofia do Convívio o artigo Crux, ainda incompleto, no qual se inclui uma demonstração de por quê essa distinção entre os campos da fé e da ciência jamais será removida – pelo menos enquanto o ser humano existir em forma corpórea.

[2] Alves, Rubem A. Protestantismo e repressão, III, 3.0. São Paulo: Ática: 1979.

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3.4. Diversidade sexual

Este é um ponto que não pode deixar de ser mencionado por sua importância pedagógica – mas para entendê-lo corretamente é preciso que antes tenhamos claro o sentido que se atribui atualmente a alguns termos.

É preciso ressalvar que nem todos os termos a seguir são usados igualmente por todos os grupos e tendências, de modo que alguns poderão considerar absurdo que sejam nomeados em conjunto – porém a intenção aqui não é apresentar um sistema, mas apenas dar a conhecer diferentes termos que circulam atualmente em torno do tema.

3.4.1. Um pouco de terminologia

Sexo físico ou anatômico: é a diferenciação masculino-feminino no nível puramente anatômico do corpo, de acordo com a presença destes ou daqueles órgãos. É um nível relativamente inequívoco, exceto pelos casos de hermafroditismo, relativamente raros.

Gênero: é um corpo de definições culturais do que seja “masculino” e “feminino”: o que é considerado “próprio de homem” em uma cultura muitas vezes é “próprio de mulher” em outra. Identidade de gênero é portanto sentir-se identificado com o “ser homem” ou o “ser mulher” numa determinada cultura – o que pode ou não coincidir com o sexo físico.

Sexo psicológico: é a sensação de “ser homem” ou “ser mulher” até no nível físico – além da mera identificação com um gênero ou modo-de-ser cultural.

Orientação sexual (mais exatamente: orientação do desejo sexual): não diz respeito a “sentir-se homem” ou “sentir-se mulher”, e sim a sentir-se sexualmente atraído/a por pessoas do mesmo sexo (homossexualidade), ou de sexo diferente (heterossexualidade).

Bissexualidade: há controvérsias em torno desse conceito: para alguns trata-se da condição natural normal do ser humano, que só optaria pela homossexualidade ou heterossexualidade devido a fatores externos (culturais e outros); já outros crêem que todo ser humano é estruturalmente heterossexual ou homossexual, apenas que alguns de modo flexível o suficiente para também experimentarem o comportamento oposto. Vê-se aí também que estão em jogo dois critérios diferentes: de um lado, quais são as atividades efetivamente praticadas; de outro, como é o desejo, como dado subjetivo, interior.

Homossexualidade: a palavra “homossexualismo” foi oficialmente banida, por não se tratar nem de um hábito escolhido, nem de uma doença: a Organização Mundial de Saúde a retirou integralmente no rol de doenças e distúrbios já nos anos 90; do mesmo modo os mais importantes conselhos de medicina e de psicologia do mundo, inclusive no Brasil. A homossexualidade é hoje entendida como uma variação normal da sexualidade, a qual em boa parte dos casos é parte integrante ou estrutural na personalidade, casos em que não se pode falar de “escolha” ou “opção”.

Transexual: é o indivíduo que sente que seu sexo psicológico diverge do sexo físico. Transexuais com freqüência têm certeza desde pequenos que fazem parte do outro gênero e/ou sexo, e não conseguem reconhecer o próprio corpo como seu,[1] e é neste campo que se dá a busca de cirurgias de mudança de sexo. É importante ressaltar que é um fenômeno independente da orientação sexual: a maior parte dos/das transexuais deseja uma pessoa cujo sexo é diferente do que ele/ela sente ter, e portanto não se sente homossexual. De modo extremamente surpreendente, porém, existem pessoas que nasceram com sexo físico masculino, sentiram-se sempre mulheres, e sentem que desejam outras mulheres de modo homossexual, e não como homens (o caso complementar também é verdadeiro).

Trangêneros: palavra adaptada do adjetivo inglês “transgender” e que se encaixa mal na gramática portuguesa, terminou por se firmar como designação genérica de pessoas que de um modo ou de outro se identificam com o gênero oposto. Há p.ex. travestis (cross dressers) não no sentido de atividade profissional, mas de pessoas, às vezes heterossexuais e casadas, que gostam de se vestir como o sexo oposto (ou melhor: o gênero oposto).

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3.4.2. A homofobia como questão pedagógica

Como se pode ver, realmente cabe aqui a palavra “diversidade”! Não cabe aqui um estudo que faça justiça ao assunto mas, como já foi dito, há alguns aspectos a ressaltar devido à sua importância pedagógica.

Antes de mais nada, é preciso ter claro que, apesar do grande aumento de visibilidade de 1995 para cá, de modo geral ainda é generalizada e severa a discriminação contra os comportamentos e as pessoas homossexuais, transexuais e transgêneros – a começar pelo fato de não se reconhecer essas distinções. Para muitos, ainda “é tudo viado”, ou “é tudo sapatão”.

O grande agravante deste preconceito é que ele geralmente é experimentado dentro da própria família. Ainda hoje é comum que pais se expressem aos berros em termos como “eu preferia ter um filho ladrão ou assassino que um filho viado”.

Poucas coisas têm um efeito tão destrutivo sobre a psique quanto sentir-se rejeitados pelos seus – por aqueles que teoricamente, pelo menos em nossa cultura, são as únicas pessoas do mundo que têm obrigação de “te proteger”.

Estudos vêm constando que o índice de suicídios entre adolescentes é três vezes maior quando envolve conflitos de identidade sexual do que quando não envolve – porém descartam claramente que se trate de um traço intrínseco à homossexualidade (o que quem sabe até ajudasse a demonstrar que se trata de uma doença ou condição anormal...): o suicídio vem como reação ao sentimento de ser rejeitado.

Há um traço que emerge desses estudos que é extremamente importante para o professor que trabalha com adolescentes:

Como um passo importante da construção de seu caminho da família para o resto do mundo, adolescentes costumam vincular-se psicologicamente a uma ou outra pessoa de referência, em quem sentem que vale a pena depositar seu afeto e confiança. Nos momentos de conflito quanto à sua própria identidade sexual, desenvolve-se intensa ansiedade sobre qual seria a reação dessa pessoa de referência à revelação da possível homossexualidade do adolescente. E os estudos apontam que com muita freqüência o suicídio ou tentativa ocorrem no momento em que fica claro que também a pessoa de referência os rejeitaria.[2]

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3.4.3. A presença estatística além das primeiras aparências

Para não discriminar ou rejeitar, é preciso entender – ou pelo menos tentar entender. É altamente recomendável que todo educador busque mais informações a respeito, o que hoje já não é tão difícil encontrar. Não devemos, porém, perder a oportunidade de registrar aqui alguns pontos cujo conhecimento faz diferença:

  Ao contrário dos preconceitos que já a apontaram como “vício burguês”, “vício da civilização branca decadente”, “vicio” deste ou daquele povo, a homossexualidade estrutural aparece em todos os povos, de todos os tipos de cultura, e pelo que a História sugere também em todas as épocas, com uma presença estatística quase invariável.

  Não se trata tampouco de fenômeno “antinatural”, como já se disse, pois é comum entre a maior parte dos mamíferos superiores. Entre os primatas é especialmente comum entre os macacos bonobos, machos e fêmeas, que chamam atenção também por serem os que têm as relações sociais menos violentas entre os grandes primatas.

  A fração homossexual da população tem sido estimada entre 5 e 10% do total; a tendência atual parece ser mais no sentido de 5% – porém esse número é extremamente enganoso: pode sugerir que os outros 95% fossem heterossexuais. Trata-se de um número relativo à homossexualidade exclusiva ou estrita, onde é rejeitada toda e qualquer atração pelo sexo oposto ou atividade sexual com ele – e a porcentagem de heterossexualidade estrita (ou seja: de pessoas que jamais sentem nenhuma atração e jamais se envolveriam com uma pessoa do mesmo sexo) não parece ser muito diferente da porcentagem da homossexualidade estrita.

 

  A maioria da população seria portanto relativamente bissexual, parte dela com certo predomínio do lado homossexual, parte dela com predomínio do lado heterossexual. Dividida em que proporção? Infelizmente não disponho desse dado no momento, e nem sei se existe, pois a linha de pesquisa seguida por Alfred Kinsey[3] nos anos 50, que foi a que primeiro evidenciou esse tipo de dados, parece ter sido abandonada de 1980 para cá, com o recrudescimento do conservadorismo norte-americano. Em todo caso, Kinsey constatou nos anos 50 que 1 de cada 3 homens adultos norte-americanos relatavam ter tido pelo menos um contato homossexual na vida.

•  Alfred Kinsey também fez o seguinte diagrama hipotético da distribuição da orientação sexual na população (à direita, sendo uma das cores – a preta ou a branca, tanto faz – a orientação homossexual do desejo, e a outra cor a orientação heterossexual). As curva real resultante das estatísticas deve ser com certeza mais complexa que a linha do diagrama, mas não tenho conhecimento de que tenha divergido significativamente da hipótese:

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3.4.4. A possibilidade real de uma sociedade não discriminadora

O fato de que a maior parte da população é no mínimo capaz de desejo homossexual, e ocasionalmente também de atividade – ainda que não se sinta vinculada a essa forma de desejo e de atividade de modo exclusivo – sugere que deveríamos buscar uma forma de fato menos discriminatória de lidar com a questão, ou seja: em lugar de “esses são os gays; eles são diferentes mas devem ser aceitos mesmo assim (quando não tolerados mesmo assim)”, quem sabe um discurso mais honesto fosse: “esses são os gays; será que eu/nós somos tão diferentes deles assim? Afinal, de gay e de louco todo mundo tem um pouco...

É sempre interessante lembrar o caso da Grécia clássica, que parece confirmar essa visão: especialmente em Atenas, todos os homens “de bem” tinham tanto atividade heterossexual (mulher e filhos) quanto homossexual – esta em uma forma específica: todo jovem em fim de adolescência era iniciado à vida sexual e social por um homem mais velho, casado, em uma relação que durava alguns anos. Mais tarde ele mesmo iria ser casado, ter filhos, e escolher um jovem para iniciar, seguindo uma praxe extremamente respeitosa: ia visitar a família do jovem, mostrar que era uma pessoa de bem e capacitada para essa missão, e pedir permissão de que o jovem passasse a acompanhá-lo.[4]

Mas cuidado: com isto eu não estou dizendo que podemos simplesmente começar a seguir o mesmo modelo no meio de uma sociedade que o rejeita! A intenção é apenas mostrar que é possível ter uma sociedade para a qual essa questão não é tabu, mas que a aceita até no nível das instituições mais formais – mesmo não se tratando de uma sociedade que ficou conhecida como “símbolo de devassidão” ou algo assim (como ficaram os nomes de Babilônia e de Sodoma), e sim uma sociedade que respeitamos profundamente por suas realizações intelectuais, artísticas e morais.

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3.4.5. Duas palavras sobre diversidade sexual e religião

Finalmente: também aqui a dimensão religiosa aparece como bastante delicada – mas não creio que se deva deixar de enfrentá-la por isso.

Primeiro de tudo, sendo aposta pessoal, minha opção religiosa deveria servir para que eu oriente os meus atos, não os de outra pessoa (o que na corrente religiosa cristã está claramente expresso em Mateus 7:1).

Segundo, por sincera que seja a minha preocupação com o destino do meu irmão (nos termos cristãos: a salvação), estarei fazendo um julgamento teologicamente consistente ao considerar a homossexualidade inaceitável, ou estarei usando a linguagem religiosa como disfarce para os preconceitos que trago comigo de outras fontes?

Exemplificando: o mesmo trecho do Velho Testamento em que se busca apoio contra a homossexualidade considera um grave pecado que o homem corte a ponta da sua barba (o que naquele momento significava trair a identidade como membro daquele povo), e receber juros um crime digno de pena de morte. No Novo Testamento é o próprio Jesus quem diz: “quem disser ao seu irmão: idiota!” é “réu do fogo do inferno”, e que “é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”.

E no entanto não se vê nenhuma organização religiosa tentando libertar os ricos da sua riqueza para que possam entrar no reino dos céus. Como não perguntar: “onde está a diferença?”

 


[1] V. o filme Minha vida em cor de rosa [Ma vie en rose], dirigido por Alain Berliner (Bélgica/França, 1997).

[2] Ramafedi, Gary (ed). Death by denial: studies of suicide in gay and lesbian teenagers. Boston: Alyson Publ., 1994.

[3] Considero altamente recomendável, sobretudo para educadores, assistir a comovente biografia cinematográfica Kinsey: vamos falar de sexo, de 2005.

[4] Ver p.ex. o capítulo sobre o tema no clássico livro de Henri E. Marrou, História da Educação na Antigüidade. A respeitabilidade dessa forma de relação dentro da sociedade ateniense também é atestada em diversos trechos de um dos mais famosos diálogos de Platão, O Banquete (ou Symposium).

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3.5. Quantos preconceitos se pode tolerar?

A proporção de canhotos na população mundial é por volta de 10%. Hoje se considera isso uma variação normal, e as escolas são obrigadas a fornecerem carteiras adequadas aos canhotos. Há menos de um século, porém, ainda se considerava que fosse um desvio a ser curado. Crianças recebiam castigos físicos, humilhações, tinham a mão esquerda amarrada para terem que escrever com a direita. Se você é destro imagine que amarrassem sua mão direita e o forçassem a escrever, comer e fazer tudo mais com a esquerda, para ter idéia da agressão que era feita a essas crianças “para seu próprio bem”.

Mais: argumentos teológicos eram encontrados para mostrar que tais pessoas eram suspeitas de serem filhas do mal. Por exemplo: Jesus estaria assentado à direita de Deus Pai, e portanto o lado direito é do bem; por conseguinte, o esquerdo só pode ser do mal... Tanto que o diabo faria o anti-batismo dos seus seguidores com a mão esquerda (é irresistível acrescentar: como todos já tiveram a oportunidade de ver...)

Não se trata de fantasia retórica nossa: há documentação abundante desses e de outros atos de demonização do diferente.

O assunto é inesgotável, mas em algum ponto precisamos parar. E eu proponho que seja com o seguinte desafio, especial para pessoas que se pretendem educadores, e mais ainda: educadores libertadores:

 Se conservamos um só preconceito ainda somos preconceituosos. E poderemos esperar, enquanto formos preconceituosos, que nossa ação tenha efeito autenticamente libertador? [1]



[1] Cabe lembrar aqui a etimologia da palavra preconceito: pré-conceito: ter uma imagem e um julgamento da coisa antes de conhecê-la de fato. Outra coisa é a crítica, no sentido superior da palavra: “passar por um crivo”, analisar em profundidade, e julgar a partir do conhecimento que se ganhou. Educadores não podem ser aceitadores a-críticos; nem pré-conceituosos. Trabalhoso? Ora, quem quer educar não pode parar nunca de se educar...

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